Infinitas lembranças.

As gotas de chuva caiam sem parar lá fora. Era possível ver, pelos clarões que se formavam em períodos demasiados curtos de tempo, que a tempestade que se formara tão repentinamente caia enfurecida do céu. A única luz acessa naquela última casa da rua, era a do quarto de Emilly. Ela não conseguia dormir, absorta em tantos pensamentos. Notava os clarões produzidos pela trovoada e ouvia graciosamente o barulho da chuva ao cair ao chão. Podia imaginar o cheiro de terra molhada que devia ter lá fora.

De fato, uma das qualidades que poucos conseguiam enxergar nela, era a facilidade de associar lembranças aos cheiros. É claro que eram poucos os contemplados em terem pensamentos claros e não julgarem (como tantos outros faziam) um fato infantil ou/e mentiroso.

Emilly ouvia a tempestade e não conseguia mais dormir. Virava-se de um lado para o outro, em tentativas falhas de ter uma boa noite de sono. Não conseguia, porém, esconder de si mesma seu mais ardoroso desejo daquela noite. E, repentinamente, caminhou em passos lentos e estudados pela casa para não perturbar o sono de ninguém.
Ao sair à rua, sabia que tinha algo a fazer ali do que simplesmente contemplar a beleza daquela cena. Sim, é claro que ela conseguia enxergar a beleza que passa despercebida aos olhos de muitos que vem a chuva.

Encontrou, então, ao andar por um lado do jardim que há tempos não caminhava, uma pequena caixinha. Ela lembrava-se certamente do dia em que a deixara ali e lembrava-se bem de tudo que tinha colocado ali dentro. Suas mais belas e fortes recordações estavam lá dentro, e aos poucos, o cheiro que aquela tempestade lhe trazia misturava-se com a triste e amarga realidade de que a partir de agora teria que enfrentar o mundo com olhos de uma adulta.

Quanta repulsa tinha de tornar-se um deles, que andavam apressados e sem tempo para a felicidade. Porém, nada poderia fazer senão aceitar essa condição imposta pela vida a ela.

E então, ao fim daquela noite de seu aniversário, levou aquela caixa que tinha construído fazia cerca de um ano. Ao chegar ao seu quarto, assegurou-se de ter caneta e papel à sua disposição, para assim ‘’vomitar’’ palavras naquele papel., para ler anos depois como uma lembrança. O cheiro da tempestade lhe trazia a maturidade, misturado ao desejo de querer ter para sempre um espírito jovem dentro de si.

E assim, dormiu, logo que a tempestade passou.

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