Pequenos encantos.

Menina de
cidade grande, Aline refletia ao longo dos anos o quanto perdemos um pouco da
magia da infância. Quando crianças, qualquer coisa nos fascina, mesmo que não
seja material. Um beijo na testa, um boa noite caloroso, o cheiro de terra molhada
e o cheiro da grama após ser cortada. Nós nos encantamos com pouco. Mas ao
longo do tempo, percebeu a moça, acabamos perdendo um pouco dessa capacidade de
se encantar com o pouco. Queremos sempre mais.
Os nossos objetivos tem ligação
com coisas materiais. Não que elas não sejam necessárias, afinal, vivemos em um
país capitalista e ninguém consegue sobreviver de vento. Mas para Aline, coisas
materiais e coisas simples poderiam andar juntas, ambas trazendo felicidade
para as pessoas e fazendo assim, com que o mundo fosse um pouquinho melhor.
Devaneios de menina, é óbvio, sabia muito bem que na realidade isso não
acontece dessa forma. Ou se é acontece são em raros casos.
Na verdade, ela pensava desse
jeito porque tinha medo que as coisas pequenas que alegram a vida, também
deixassem de fazer sentido para ela depois de certa idade. Tinha medo de se
deixar enganar pelas coisas fáceis, como as pessoas grandes fazem. As pessoas
grandes se importam com números. Números e mais números e a felicidade é certa.
Sabia disso, pois, seu livro de infância preferido é O Pequeno Príncipe.  E nele há uma passagem sobre isso. Pessoas
grandes só darão importância a algo se envolver números. Não generalizando, é
claro, mas a maioria ela tinha consciência que era assim.
Aliás, O Pequeno Príncipe foi um
livro que marcou bastante sua infância. Era de sua mãe e muito antes de
aprender a ler, Aline folheava aquele livro e inventava várias versões
diferentes a cada vez que tentava ler. 
Não foi o primeiro que leu, mas foi com esse que nunca perdeu a magia
das páginas de um livro. Todo mundo antes de crescer deveria ler, segundo a
opinião da moça.
Aline tinha seus quinze anos,
ainda tinha a alma de criança, que sorri pra vida, encanta-se com o canto dos
pássaros e gosta de conversar num fim de tarde sentindo o vento bater na cara.
Mas ela sabe que conforme ficamos mais velhos, as responsabilidades aumentam,
bem como a nossa ambição de vida também. Todas as pessoas mais velhas que
conhecem acabaram se perdendo nesse mundo onde nem tudo é tão belo assim.
Algumas pessoas perdem a poesia, a beleza e a leveza da vida. 
A maior responsabilidade daquela
moça de quinze anos não era conseguir passar no vestibular, formar-se na melhor
faculdade da cidade e conseguir um emprego brilhante. A maior responsabilidade
que Aline sabia que iria ter é aceitar o fato de estar saindo da melhor fase de
sua vida para entrar num mundo de pessoas grandes. Tinha a responsabilidade de
se tornar uma pessoa grande com coração de uma criança, de se tornar uma pessoa
que consiga seus objetivos, sem deixar seus valores e encantos de lado. Ou
melhor dizendo, nunca queria deixar de se encantar com as pequenas e bonitas
coisas dessa vida.

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