A beleza de uma madrugada.

Juliana sempre foi daquelas
pessoas da noite, que acham que o mundo inteiro deveria adotar a ideia de um
terceiro turno: a madrugada. Ela simplesmente vivia e pensava melhor nesse
horário, muito diferente do que quando acordava cedinho, com a cara inchada de
olheiras (de tanto passar noites em claro) e tentando fingir uma empolgação
para o dia que outras pessoas também sentiam. Geralmente essa tentativa era
frustrada, mas ela ia levando a vida. 
De noite, ela tinha os melhores
pensamentos, as melhores ideias e produzia os melhores textos. Suas leituras
eram mais proveitosas. Se não tivesse tanto medo assim da violência, sairia
sozinha caminhando à noite pelas ruas, só para gritar baixinho ao mundo: a
madrugada também tem sua beleza, acordem, não percam isso!  Mas seu medo não vem ao caso, infelizmente
esse não é um medo só de Juliana. É de praticamente todos. Por isso, ela se
contenta em observar de longe a madrugada da janela de seu quarto. E contempla
toda beleza que não consegue enxergar no dia.
Pessoas da noite são
compreendidas da forma errada, pensava ela. "Sou taxada muitas vezes de
preguiçosa por não aguentar com aquele sorriso que mostra todos os dentes logo
de manhã cedo. Ah! Se eles soubessem que guardo esse sorriso para a hora mais
calma dos dias. Que me guardo para a madrugada. Inspiro-me nela." Esses eram
os pensamentos de Juliana. Queria inventar uma lei onde o terceiro turno
existisse em todo o mundo e em todas as áreas, porque afinal, esse turno de
trabalho existe. Mas não em todos os empregos e em nenhuma faculdade. Seria um
tanto radical, mas não obrigaria as outras pessoas a seguirem esse regime. Não
faria o mesmo que fazem com ela, fazem com que ela demonstre suas habilidades
em hora que elas não se mostram assim tão fortes. Só participaria desse
terceiro turno quem também fosse assim, como ela, amante das madrugadas.
A moça sabia que sua vida iria
melhorar praticamente em tudo se isso existisse. Mas ela sabe que querer está
tão distante que poder, que já nem perde tanto tempo assim sonhando com isso.
Ela tenta se adaptar ao regime atual. Dormir cedo, sonhar, acordar com um
sorriso no rosto, trabalhar e estudar até cansar e dormir de novo. Sem poder
ver a beleza da noite (apenas aos finais de semana, onde ela se permite isso),
Juliana às vezes não se sente assim tão feliz.
Mas ora, por que ela gosta tanto
assim da madrugada? A moça sabe que não é só ela que gosta disso. A moça sabe
que muitas pessoas já passaram madrugadas em claro estudando, escrevendo,
lendo, inventando. Muitas, forçadas, outras por vontade própria. E sabe que
grande parte dessas pessoas se encantou com a madrugada. Aliás, é tão difícil
não se encantar… É tudo tão calmo. Tão sereno. Tão bonito. Ah… Juliana não
cansa e não poupa elogios a seu período predileto do dia. Muito menos eu, que
narro e que entendo a visão de minha personagem. 
Mas é moça vivida e sabe que não
adianta muito devanear com uma coisa que mudaria a rotina do mundo. Seria
utopia. E talvez perdesse um pouco a graça da calmaria da madrugada. Vai que
tem muitas pessoas no mundo que também gostariam de um terceiro turno? Sei lá,
deixa assim como está. Não está bom, mas restam os finais de semana, em que
toda beleza pode ser contemplada. E ao mundo, as pessoas e principalmente a
você, que a lê, um apelo: não deixe de se encantar apenas uma vez com a beleza
da madrugada.

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