Piano bar.

Em um bar de rock, sentada uma mesa de um canto esquecido. Bebidas em cima da mesa ilustravam a ilusão de que ela gostava daquilo. Nem havia tocado, não havia conseguido. Tão deprimente era sua situação não tinha vontade de nada. Um bilhete rabiscado perto de seu copo, um número que ela bem conhecia.
A música do bar a embalava, em seu ar decadente exercendo uma de suas maiores qualidades, observar. Observava os casais embalados pela canção a dançar ou simplesmente estarem abraçados, de mãos dadas dando risadas e distribuindo sorrisos.
Ela era minoria ali. A tristeza era tanto que poderia ser contagiosa se energia do local não estivesse tão forte, era seu corpo que projetava uma barreira não deixando a alegria entrar em seu ser.
Tudo bem pensava a mesma, simplesmente não queria estar agindo como aquelas pessoas. Tinha uma grande capacidade de tentar mentir para si mesma, geralmente não conseguia, porém fingia que sim.
Batia com os dedos na mesa, cruzava e descruzava as pernas tentando fingir que tudo estava bem. Qual bar de rock que não tem sequer uma mesa em que há um alguém totalmente desanimado e totalmente fora do contexto das outras pessoas que ali festejavam?
Não seria nada demais se em outras ocasiões ela tivesse desprezado o ser que fosse pertencente aquela mesa. Tão alegre e sorridente sempre pertenceu ao grupo dos que divertiam-se ao som da música, e nem sequer usava seu senso de observação para enxergar que havia sempre um alguém solitário ali naquela mesa.
Tão engraçado e mesquinho foi seu destino. Tão diferente e humilhante era estar ali solitária, acompanhada somente da tristeza. Tentando afogar-se na bebida e nem isso conseguindo fazer. Tudo bem, disto ela nunca fez questão de usufruir. Novamente observava aquele lugar, olhava para o piano tão delicado e solitário sem ninguém tocá-lo. Novamente levou seus olhos a direção daquele bilhete rabiscado com um número de celular. Resolveu de uma vez por todas ligar antes que tomasse coragem para afogar-se na bebida e pudesse estragar tudo.
Discou de seu celular aquele número e ficou apreensiva, com respiração acelerada e praticamente suando frio, com borboletas no estômago.
Ligou, ligou e ninguém no outro lado da linha atendeu-a. Desistiu. Amassou o bilhete e jogou-o ao chão, concentrou em olhar para aquele piano tão atraente.
Até lá ela foi sentou-se e ficou, pois não sabia como tocá-lo.
Lágrimas timidamente caíam de seu rosto, ela não preocupava-se em enxugá-las, quando sentiu uma mão a tocar sua face, acariciando-a da maneira mais doce, e ela conhecia aquela carícia. Claro que conhecia! Tão doce e delicada, ao mesmo tempo carnal. Mas não poderia ser ele, não se viam há tantos anos e a única lembrança que tinha era o papel que havia acabado de amassar e desprezar. Com medo e receio, virou-se lentamente para trás e o que viu, foi seu amor. Seu primeiro e intenso amor bem a sua frente depois de tanto tempo. Como ele estava mais lindo e mais charmoso, pensou.
No fim, seu destino não tinha sido nem um pouco mesquinho, só tratou de escrever certo por linhas tortas, levá-la até onde sempre foi, mas agora em outras condições. Onde a alguns anos atrás, naquele mesmo piano conhecia seu amor e agora, o reencontrava no mesmo lugar. Inacreditável, mas não impossível.

"Eu conheci uma guria que eu já conhecia de outros carnavais com outras fantasias. Ela apareceu, parecia tão sozinha. Parecia que era minha aquela solidão"

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