Lane é uma moça que se encanta facilmente por coisas antigas. Em seu quarto, ela guarda suas lembranças e coisas antigas que pertenceram a outros membros de sua família. Para ela, aquilo tem um valor imenso, valor esse que poucos conseguem entender. Às vezes, prefere passar o dia trancada em seu quarto, conversando com seus livros e objetos antigos a sair e enfrentar a realidade lá fora.
Hoje era um desses dias em que ela não sairia de seu quarto. Que ali, viajaria através de seus livros e também de suas músicas. Reveria pela milésima vez as cartas antigas que um dia foi de sua falecida tia e também se inspiraria em fotos antigas da família, ou puras fotos de objetos muito, mas muito antigos. Lá fora o dia estava cinza, como naqueles dias em que as pessoas saem na rua e se vem obrigadas a se agasalharem melhor, pois senão seus corpos serão atingidos pelo ar frio que prevalece durante o caminho em que percorrem, pensou ela.
Lane tem uma espécie de diário, entretanto ela não o usa com a mesma finalidade que as meninas de sua idade. Não consegue entender por que as suas amigas utilizam um espaço tão precioso de escrita comentando sobre suas paixonites agudas de adolescência ou até mesmo sobre o quanto estão tristes por alguma coisa banal. Ela prefere utilizar daquele espaço para criar e sair um pouco do seu mundinho. Aliás, Lane faz muito disso. Foge da realidade, por vezes, até demais. Talvez isso não seja muito bom, mas essa amante das coisas antigas ainda não aprendeu sobre isso. Um dia aprenderá, podem apostar.
Especialmente hoje ela estava escrevendo sobre o quanto é bom escrever. Sobre o quanto é bom se camuflar dentro de frases transcritas para o papel. Mas além de escrever e criar algo baseado nessa ideia se deu conta sobre como é engraçada e boa a sensação de quando sente a inspiração chegando. Pois a danada da inspiração vem de mansinho, quando Lane menos espera. Quando a menina pede ou busca muito por ela, a inspiração fica ai, fugindo pelos caminhos em que encontra, só para aparecer de surpresa e fazer o sorriso de Lane se tornar imenso e contagiante.
Naquele dia cinza de estranha primavera, a moça observava pela janela os pássaros a voarem e a cantarem, e baixinho, ouve o rosrosnar de seu gato, que dormia tranquilamente fazia horas. São coisas assim, pensou Lane, que me inspiram. Mas sabe muito bem que não é só isso que a inspira. As mais variadas fotos que vê a inspiram de uma forma tão bela, que gostaria de formular um texto para cada imagem que vê. E não importa se é uma foto ou alguma imagem real que ela captura com a sua memória, tudo serve para a inspiração de Lane.
Lá fora ela vê pessoas andando de mãos dadas e presencia vários abraços. Isso a ajuda a refletir o quanto ela gosta de um abraço apertado, de um abraço bem dado, de um abraço que transborde carinho e alegria. Ela coloca seu gato no colo, puxa uma coberta, guarda o papel e o lápis em que escreveu mais um texto, apaga todas as luzes e vai aproveitar o dia cinza para dormir e assim quem sabe, sonhar com mais inspiração. Com mais inspiração para os próximos dias.
Sugestão de música para a leitura: Farewell – Feldberg.

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