
AVISO DE GATILHO: esse texto fala sobre abuso e pode trazer memórias de gatilho para quem já passou por isso.
Essa semana uma menina foi estuprada por trinta homens no Rio de Janeiro. TRINTA. É difícil e horrível imaginar. Casos assim chocam e deixam uma sensação ruim. E esse não foi um acontecimento isolado, não foi o primeiro e muito menos o último estupro. Toda semana, todos os dias, agora mesmo, tem alguma mulher sendo estuprada. Porque o estupro não é só o da rua deserta. Eles acontecem dentro de casa, de relacionamentos, muitas vezes vindo de quem a vítima menos espera. Porque sim, dentro de um relacionamento e numa relação sexual, se a mulher pedir dizer "não" ou "para" para alguma prática que está causando dor a ela e o companheiro não respeitar, é estupro. As estatísticas ainda nos mostram apenas uma parte, já que sabemos que muitas mulheres ainda são coagidas a não denunciarem seu abusador e quando denunciam, ainda enfrentam um processo extremamente difícil e doloroso, ouvindo muitas frases e recebendo olhares que insinuam que ela poderia ter se protegido melhor.
Desde pequenas somos ensinadas a nos protegermos e a evitarmos um estupro. Como se a culpa fosse nossa. ‘’Não ande sozinha à noite na rua, não beba, não aceite carona de desconhecidos’’ e entre os milhares de conselhos que recebemos para evitar um estupro. Enquanto muitos fingem não entender que o simples fato de respeitar o não de uma mulher já leva ao estupro. Muitos ainda acham que se a mulher foi para a casa de um cara ela não tem direito de mudar de ideia em relação a fazer sexo. E não respeitar essa mudança de ideia, é um estupro Muitos acham que se a mulher diz não está fazendo charme. Muitas pessoas, mesmo no caso dessa menina, ainda tentam justificar que se ela tivesse ou não tivesse feito tal coisa não teria sido estuprada. Como se fosse uma punição porque ela quis viver. Porque precisou andar sozinha após a faculdade ou trabalho, quis se divertir, quis simplesmente ter liberdade de ir e vir. Recentemente também, teve um caso famoso que um cara mais velho foi preso por estupro de vulnerável, pois embebedava meninas mais novas para seu divertimento. Também vi muitas pessoas colocando a culpa nas meninas, dizendo que hoje em dia elas são piores que muitas mulheres mais velhas por aí. Parece que, em geral, há sempre algum fator culpando a vítima.
Há umas duas semanas, assisti a um filme chamado Confiar, dirigido por David Schwimmer. Conta a história de Annie, uma menina de 14 anos que conhece um cara pela internet achando que ele tem 16 anos. No fim das contas, o cara é muito mais velho e consegue usar de manipulação para abusá-la. Porque sim, muitos adoram falar que as meninas de hoje em dia estão piores que muitas mulheres mais velhas, mas ignoram o poder de manipulação que um homem mais velho pode ter perante uma menina. No fim das contas, poderia ser um filme que somente nos mostra o perigo de confiarmos em estranhos na internet. Mas a lição do filme vai muito além disso.
Demora muito para que a garota entenda o que realmente aconteceu (ela passa por pequenos estágios de síndrome de Estocolmo) e enquanto isso, a trama nos mostra como a vítima é vista como culpada e muitas vezes alvo de chacota. De como a ideia do conceito de estupro para muitas pessoas é limitada. Durante a história nos deparamos com um amigo do pai da Annie, ficando aliviado que ela não tinha sido estuprada, já que não houve violência física (como muitos acham que o estupro é só aquele que acontece em rua escura e deserta). Sutilmente e sem colocar muitas cenas de gatilho, o filme nos mostra o quanto é importante debatermos sobre isso. Modificarmos a ideia de que estupradores são doentes, porque a sociedade costuma proferir isso, mas isso só dá ainda mais força para a cultura do estupro. No caso de um estupro coletivo, como o ocorrido essa semana, não temos como dizer que tinham trinta homens doentes juntos. Pararmos de culpar a vítima e entendermos o quanto esse crime pode ser devastador, física e mentalmente para quem passa por ele. Como isso afeta. Esse é filme para ver e fazer várias reflexões.
E por que eu estou falando disso e conectando um caso a outro? Porque amanhã mesmo, se abrirmos os jornais, as notícias de estupro continuarão lá. As mesmas desculpas para naturalizá-lo (roupa, horário, bebida, traição) estarão lá também. Desculpas como ‘’ninguém é estuprada em casa lavando a louça’’ ou ‘’ninguém é estuprada saindo da igreja’’. Como se essas mesmas pessoas ignorassem que o estupro dentro de casa, cometido por parentes, acontecem em grandes proporções. Como se as pessoas não lessem jornais, porque se você procurar, há inúmeros casos de estupros sofridos por mulheres ao voltarem da igreja. NADA justifica. Nada mesmo. E não há uma fórmula certa para que as mulheres usem e se protejam 100% desse crime. O simples fato de trabalharmos, de estudarmos, de querermos nossa liberdade e precisarmos andar sozinhas na rua e no transporte coletivo já nos coloca todos os dias nesse risco. Isso sem contar dos estupros silenciosos que ocorrem dentro de casa, dentro dos relacionamentos. Há sim uma naturalização desse crime. E é isso que precisamos mudar. E você, mulher que já passou por isso: a culpa não foi e nunca será sua! Estamos juntas.
Obs: Eu sei que as mulheres não são as únicas vítimas de estupro, porém o intuito do texto foi demonstrar repúdio ao ato de culpar a vítima, que geralmente ocorre quando ela é mulher, como já mencionei no texto as várias formas que muitos usam para culpá-la.

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