O que eu nunca desejei sentir.

Eu o vi esperando por alguém que nunca iria chegar. Eu o vi caindo em solidão profunda e isso machucava meu coração. Eu o via sofrer e ele mal desconfiava que o seu sofrimento por outro alguém que não voltaria, tornava-se meu sofrimento. Sentia meu coração se despedaçando aos poucos, sendo esmagado por uma tortura sem fim, de precisar vê-lo em estado de adoração maior por alguém que não era eu.

Ouvia seus lamentos, ouvia-o chamar pela sua menina. A cada chamado uma lágrima caía do meu rosto e ficava congelada em meu coração. E mesmo assim eu não conseguia fazer do meu coração parte gélida de mim, eu ainda devaneava ao pensar em sua face e seu corpo tão belo, e as suas palavras com beleza incomparável. Seus lamentos e murmúrios por uma menina que nunca voltaria eram como um punhal no meu coração, e mesmo assim eu não conseguia parar de vê-lo, eu precisava de sua presença, mesmo que nunca poderia senti-lo junto a mim.

Tê-lo ao meu lado, mesmo que fosse para ouvi-lo recitar versos para a amada, era o mais perto que eu poderia chegar dele e como longe dele eu não vivia eu aguentava tal tortura. Eu havia me tornado uma masoquista de primeira linha, quebrava meu coração aos poucos e mesmo assim persistia na loucura de estar perto dele. Tudo bem, o amor deixa-me cega, mas chegar a tal estágio era um tanto quanto vergonhoso.

Cansada de tanto ouvir declarações para uma garota que eu só havia visto uma única vez e havia sido a vez em que ela magoou-o profundamente, isto estava me fazendo chegar a um estágio de cansaço. Cansada estava por persistir em tal situação e ser ombro amigo da pessoa que eu mais amava. Minha vontade era de agir instintivamente e numa súbita distração que ele tivesse, colocar meus braços ao redor do seu pescoço, sentir a troca de olhares e como eu sempre desejei beijá-lo como se o mundo acabasse naquele momento.

Até que um dia eu havia criado essa coragem, estava decidida em ir procurá-lo e fazer o que meu coração sempre sonhou e seguir os meus mais doces devaneios, senti-lo em mim, saber o gosto de sua presença. Eu corria contra o tempo e passava meu batom cor de pele, arrumava meus cabelos e colocava um laço delicado nele, eu estava pronta para encarar o dia que seria o melhor de minha vida. Não queria avisá-lo que estaria na praça que sempre íamos, seria totalmente surpresa, até porque nos últimos dias eu não mais tinha ido ser companhia lá de suas lamentações, havia tirado estes dias para pensar na minha decisão.

Andava pela rua, com um sorriso tímido no rosto, imaginando como seria o momento tão esperado. A ansiedade e as borboletas na barriga eram tantas que não senti o vibrar do meu celular. Eu andava de olhos fechados por um caminho que eu já conhecia. Mas eu preferia ter ficado de olhos fechados ou nunca ter acordado aquele dia.

Ao chegar à praça, avistei um casal conversando e no momento em que iria me sentar e com os olhos procurar o meu amado, eu o vi. Ele estava acompanhado. Da menina que tanto lamentou perdê-la. Ela havia voltado e o queria de volta, sem saber, roubou-o de mim. Com lágrimas nos olhos, desta vez, lágrimas muito mais gélidas que as que eu costumava derramar por ele. Eu procurei saber que horas eram para poder sair dali sem ser vista, e foi quando ao agarrar meu celular vi que havia uma mensagem dele.

"Oi Lu, queria te contar que estou muito feliz, tu não irás mais precisar aguentar-me todos os dias lamentando por ela. Ela voltou, ela voltou pra mim. Não é ótimo? A garota que eu amo voltou pra mim. Bem, mais tarde conversamos e te conto tudo, estou indo lá na praça encontrá-la, beijos, Renato."

Só tive coragem e vontade, de respondê-lo com um sincero desejo de boa sorte. Ele nunca ficaria sabendo dos meus sentimentos por ele, e agora que ele viveria feliz e não precisaria mais de mim, foi melhor ter sido assim.

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