O frio, predominante nos seus momentos de reflexão, estava novamente presente. O cenário era seu quarto, o único lugar em que ela se sentia a vontade e sentia que ali, tinha um pouco do que ela era. Em sua mente havia muitas recordações. Lá fora, existia ar frio da noite e a lua cheia, bem ao meio do céu, sendo atriz do espetáculo. As lembranças, por mais que parecessem meras coadjuvantes, por não aparecerem fisicamente em nenhuma cena, exerciam um papel, senão um dos mais importantes, que nem a própria garota poderia imaginar.
Porém, esse espetáculo, repetia-se a cada dia. Eram as mesmas falas, os mesmos choros e os mesmos raros sorrisos. Sempre era assim. Uma hora isto cansa, mas, não sabia o que fazer para a situação mudar. Todos os dias ela se sentava em sua cama e ficava olhando a noite, de repente as lembranças começavam a entrar em cena e sua expressão mudava. Perdia-se totalmente no tempo e desligava-se do que acontecia a sua volta.
Todos os tipos de recordações vinham visitá-la, porém, uma em especial era a mais forte e mais presente de todas. Era como se ela pudesse sentir a presença daquela lembrança, como se a lembrança estivesse sentada, bem ao seu lado. E é o que poderia sempre ter acontecido, pois ela desligava-se totalmente do mundo ao seu redor. Quem sabe, sua recordação mais especial e forte sempre esteve presente ao seu lado, mesmo que nunca ficasse sabendo disso.
De tanto tornar-se presente, a lembrança já havia decorado todas as ações e falas que possuía naquela peça. Tinha o papel destaque, entre todas as outras. Não que ela fosse melhor que todas, mas sua intensidade ao ser vivida pela garota foi maior. Era sua recordação mais nítida do primeiro amor. Ou, se é que agora ela pode chamar aquilo de amor. Às vezes, conscientemente tenta entender porque fazemos certas coisas ou temos certeza que sempre somos sábios sobre o amor. Mas sábia ela não podia ser, pois aquilo, nem era amor.
Essa recordação fazia seu rosto expressar um pequeno sorriso, que em seguida trazia consigo as lágrimas ao cair do seu olhar. Todas as lembranças lhe causavam alguma reação. Nostalgia, tristeza, carência, solidão. Sentimentos assim, ela poderia sentir naquele espetáculo. Não que isso fosse bom. Na verdade, nunca descobriu se era bom ou ruim. Ficou no intermediário.
Apesar de poder sentir todas essas sensações que eram reais, suas recordações nunca foram nítidas. Isso era o que mais a atormentava. Não poder lembrar-se dos rostos, dos sorrisos. Só lembrava-se do que sentia naquele momento que agora era relembrado. Isso a machucava. Às vezes lembrar-se da imagem, é melhor do que sentir as sensações de tal momento. É como camuflar a dor.
E assim, como todos os dias, suas lembranças tinham à hora de encerrar essa peça solitária. À hora de deixar que as sensações ruins fossem embora e que as falsas sensações de felicidade dos momentos atuais retornassem para então, iniciarem, ou melhor, continuarem uma peça.
Se em suas recordações, os sentimentos eram ruins e o espetáculo era solitário, ao menos ela podia ter a certeza de que aquilo, por mais que doesse, era verdadeiro. A peça da vida em que vivia atualmente, era o que sempre sonhou, sempre quis. Mas a deixava com uma grande e sufocante dúvida após a pequena peça solitária. Essa tal dúvida, era simples e impactante. A dúvida de estar vivendo um falso espetáculo. Uma falsa vida.

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