As pessoas caminhavam pela rua naquele dia qualquer de fim de maio. Ninguém notava a mesa de entrada daquele bar, ninguém notava a melodia que era produzida por aquele cara qualquer com um violão na mão. Inutilmente, tentava atrair as pessoas, como sempre o fez e novamente, sua tentativa era errada, frustrada e mal planejada. Não era nenhuma novidade, nada que fosse insuperável, estava acostumado.
Havia uma pessoa que tinha se encantado com suas melodias, há alguns anos atrás. Ela era o mais perto da perfeição do que se possa imaginar. Perfeita, linda, doce e delicada. Uma boneca de porcelana que ele jurava proteger, cuidar. Possessivo, sempre foi. Agia como se ela a pertencesse e como se nunca a perderia.
E agora, alguns anos mais tarde ele estava ali, ganhando a vida num bar qualquer. Seu coração amargurado só tinha espaço para passageiras paixões. A cada vez que abria sua caixa de recordações, encontrava o que tempo tentou apagar, mas não conseguiu. Pura nostalgia. As pessoas caminhavam, a vida corria depressa naquela cidade imensa e ele, nunca mais tinha encontrado aquela garota, espelho de perfeição. Imaginava como ela poderia estar e com quem ela deveria estar. Mas o orgulho era maior e nunca mais ele conseguiu procurá-la. Se um dia ela voltasse, nada o faria perdoá-la.
Escrevia canções de amor em seu quarto, combinava a letra com a melodia e com isso, ganhava a vida. Amava o que fazia, mesmo que ninguém o reconhecia. Suas canções, de beleza imensa, falavam tudo que estava escondido em seu coração partido. Uma forma de desabafar e preservar sua identidade, uma forma de desabafar sem parecer ridículo. Ninguém parava para ouvi-lo, ninguém imaginaria que aquelas músicas corriqueiras que ouviam ao passar por ali, seria reflexo de sua vida difícil.
A poesia pareceria fazer bastante sentido, mesmo para alguém ressentido. Era incrível sua sensibilidade e a delicadeza que escrevia as canções. Um dia notou o olhar fixo de uma moça, ela o olhava nos gestos, no jeito do toque do violão, no abrir da boca ao cantar cada canção. Parou e se sentou, pediu um café. E se foi. Ele a conhecia, mas não conseguia lembrar-se de onde. Quem seria? Ultimamente, não estava mais arrasando corações. Havia uma ou duas garotas por mês interessadas nele, mas era só isso.
Num dia de inverno quando foi buscar suas contas na caixa de correspondência, deparou-se com uma carta. Não tinha assinatura e ele de imediato não conseguia identificar de quem era. O mistério o atraiu e com a carta foi subindo as escadas de sua casa. Em seu quarto, abriu-a e começou a lê-la. Notável eram as lágrimas que caíram de seus olhos e seu aspecto de cara apaixonado havia voltado. Por um segundo podia-se pensar, que toda aquela amargura havia ido embora com aquelas palavras. É claro que ele sabia quem era a dona daquelas frases, não havia dúvida alguma. Era aquela, aquela pessoa que chegava ao mais perto da perfeição que já conheceu. Mas agora os tempos eram outros e uma carta não o faria mudar. Dane-se se era ela a garota que ficou observando-o aquele dia na entrada do bar, dane-se se ela estava mais bela e delicada do que nunca, dane-se todo o amor que ainda sentia.
‘’ Pedaços de um coração partido, em frente a uma carta de amor. Não chore, não ligue, não volte, não ouse me amar’’.
Na noite seguinte ele se arrumava e ia para o lugar de sempre, levava consigo seu violão e suas canções. Tentava não pensar em nada, mas a imagem de uma garota vinha em sua mente sempre. Por ironia, ou não, lá estava ela, sentava naquela mesa de entrada, que aqui já foi mencionada. Por ironia ou não, o bar estava mais cheio do que costumava estar e ele, a cantoria iniciou. No fim da noite guardava suas coisas e se preparava para ir para casa. Lamentava não ter colocado em sua mochila mais um casaco, o frio que fazia era insuportável.
Ao sair do bar deu de cara com quem não queria encarar. Não queria conversa, não quis falar. Não foram necessárias palavras quando os olhares se encontraram e a moça agiu de imediato. O contato dos lábios, dos corpos, ao meio das pessoas que ainda insistiam em na rua andar. O beijo com gosto de saudade, o beijo que tanto havia o marcado e aparecia em suas lembranças. Como resistir, como agir com a razão perante a um beijo roubado, vindo do verdadeiro amor, que sempre no coração ficou guardado?

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