As horas no relógio da parede, ora passavam rápidas, ora devagar. Ela estava deitada em sua cama imensa, onde poderia perder-se, se quisesse, de tanto espaço que havia sobrando. Em seus cabelos havia um belo laço de fita vermelho, a cor da paixão. Algo que ela nunca teve a sorte de viver.
Em cima de seu bidê havia uma carta de amor sem remetente, com uma letra que ela era incapaz de reconhecer. Não entendia como uma carta poderia implantar em tão pouco tempo, tantas dúvidas dentro de si. Afinal, ela nem sabia que se o que era mencionado na carta realmente era real, e nem sabia quem a havia mandado.
O tempo passava e o sono nunca chegava para ela. O que não era normal, pois sempre foi uma pessoa que onde pudesse, dormia. Ela tentava se distrair ouvindo suas músicas prediletas e lendo os livros que lhe encantavam, mas sempre no intervalo disso, as dúvidas recomeçavam a surgir em sua mente.
Por que, ela havia estado tão atraída em uma simples carta com frases de amor? Sempre foi de querer relacionamentos amorosos bem longe de si, tinha fama de seca e brava, e agora estava envolta de corações que sua mente projetava. Mas ela ao menos queria saber quem era e assim, poderia esquecê-lo mais rapidamente.
Suas saídas se baseavam sempre em livrarias, cinemas e parques às vezes, sozinha e outras vezes, acompanhada de seus amigos. Eram sempre as mesmas pessoas que ela conhecia e por mais que ela tentasse descobrir secretamente o autor daquelas frases, sempre fracassava.
Até que um dia, decidiu voltar a ser seca e ter repúdio de relacionamentos amorosos.
Voltou a conseguir dormir sempre que podia, a ler, ver filmes e escutar suas músicas preferidas e principalmente, a parar de olhar para o relógio da parede. Era mais feliz, ou pelo menos projetava a ilusão de ser.
Um dia ela estava indo até a livraria, para comprar os livros que há tempos estava querendo, e lá dentro encontrou um rapaz, ele estava ao seu lado, escolhendo livros que ela já havia lido. Sentiu algo estranho, o mesmo que sentiu quando abriu aquela carta e a leu pela primeira vez. Tinha a impressão de ter visto aquele rapaz em algum lugar, mas achou melhor parar com tanta paranóia. Afinal, era apenas um rapaz comum escolhendo livros na mesma livraria que ela. Nada mais que uma coincidência, nada de destino.
Voltou para a casa, mas antes foi obrigada a tirar seu cachecol da bolsa e colocá-lo, pois o frio que fazia era intenso, ela gostava disso, porém não queria congelar. Voltou para a casa e sua rotina normal, tudo estava indo bem até que em sua caixa de correspondência, estava uma nova carta de amor. Desta vez, ela estava decidida a não abri-la e quem sabe, poderia queimá-la à noite.
As horas se passaram, conforme o barulho do relógio ia acompanhando essa rotina, e lá fora, a noite caiu. Então ela pegou a carta na mão e colocou-se em frente à lareira, totalmente decidida em queimá-la. Porém, como se contrariasse a sua própria decisão, instantes antes de levar a carta em direção a lareira, ela parou e abriu-a, começando a lê-la.
Não podia acreditar nas palavras que ali encontrava, eram tão doces e atraentes, a pitada de romantismo que faltava em si e em seus dias. Novamente sem remetente, já toda a sua angústia iniciava-se novamente. Foi quando ao final da carta, encontrou algo que a faria mudar totalmente seu conceito sobre destino.
Nunca reparava muito nas pessoas que estavam ao seu redor, quando saía com seus amigos e quando saía sozinha. Não tinha mais o hábito de ser observadora, havia se cansado disto. Mas não sabia que havia quem a observava e reparava em todos seus atos, naquela livraria. Seus gestos, seu sorriso, seu olhar, seus cabelos… Era engraçado pensar que alguém se interessava anonimamente por ela. Era mais engraçado ainda pensar que este alguém, era o rapaz que ela havia encontrado há algumas semanas na livraria, por quem tinha sentido algo estranho, um frio na barriga.
Voltou até seu quarto com a carta na mão, tirou seu laço vermelho do cabelo e se deitou para dormir, seus sonhos foram os mais confusos e belos possíveis. Por um lado ela queria entregar-se à esta loucura toda e por outro, algo dizia que isso era totalmente ridículo. No outro dia pela manhã, acordou e resolveu seguir o seu coração, aprontou-se, colocou seu laço no cabelo e saiu de casa, com destino até a livraria.

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