Brincando de felicidade.

09h17min da manhã.
Marcava o relógio que despertou Matilde. Acordou e na rotina de sempre, tomou um belo banho, tomou seu café da manhã e escovou os dentes ao som da música que tocava em seu fone de ouvido. Ela se sentia radiante por estar numa rotina de férias, que significava que poderia ter muito tempo para se dedicar a si mesma.
O problema daquela rotina toda é que até agora não tinha feito nada que a deixasse realmente animada, ou que a fizesse sentir que estava aproveitando o tempo de folga que tinha. Foi então que decidiu andar pela casa com seus fones de ouvido e uma idéia lhe veio à mente.
Por que não poderia fazer tudo o que lhe desse na telha? Por que não poderia fazer coisas que sempre quis fazer, mas que o tempo não permitia? Tinha aquela imensa casa somente para ela, todas as pessoas que ali viviam estavam em seus respectivos trabalhos, vivendo aquela vidinha monótona. Aquela vidinha que fora sua até então.

10h20min da manhã.
Ela decidiu que não queria mais fazer parte daquela monotonia.

Algo dentro daquele corpo de uma jovem com mente sonhadora de criança gritava e implorava por algo diferente. Ela sentiu-se diferente. Como se na verdade, ainda estivesse sonhando. Como se toda aquela vontade de sair dos mesmos costumes de todos os dias não passasse de um sonho. Mas se era um sonho, pensou Matilde, nem Freud explica essa sensação tão real que sinto agora.
Ah, mas é claro. Esqueci-me de um detalhe sobre a vida dessa garota que você está conhecendo agora. Ela é apaixonada por filosofia e tudo que a faça pensar. Ela sabe que com essa paixão, tem um grande desafio pela frente: entender o ser humano. Mas não desiste fácil e a cada dia trabalha nessa árdua tarefa, começando pelas pessoas de sua casa.

11h00min da manhã.
Quando o que parecia sonho acaba se tornando real.

A jovem se deu conta que ela não estava sonhando. Que apesar de ter tal sensação, estava ali, parada em frente a sua cama fazia mais de meia hora. Mas se sentia leve, por isso pensou estar sonhando. Sentia-se muito bem. Distribuía sorrisos, caso não estivesse sozinha em casa. Apesar de sentir-se leve e uma sensação de não-realidade, ao mesmo tempo sentia uma confiança em que isso era verdadeiro. A cada minuto a vontade de radicalizar e fugir do padrão calmo de seus dias se tornava ainda mais forte.
Andou, lentamente, até o aparelho de som velho que tinha em seu quarto. Observou o papel de parede florido e as cortinas, que precisavam ser lavadas com urgência. Ao que a música começou, podia-se ouvia a voz de Matilde animando aquele e outros cômodos da casa que antes pareciam tão tristes. Olhava-se no espelho e ria, como se as canções entrassem em sua alma e fossem melhores que o melhor remédio do mundo para desânimo ou tédio. Olhava-se ainda mais no espelho e sorria, sorria tanto que até careta ela fazia.
Era como reviver uma brincadeira da infância, era como voltar a ser criança e ir olhar na janela e o voo e canto dos pássaros. Era como se ela renascesse de uma longa escuridão. De uma longa vida que ela não queria ter levado, mas que felizmente, conseguiu mudar a tempo.
Era um tanto egoísta dar felicidade somente a si mesma, mas gostava do que sentia. Naquele momento só havia Matilde naquele quarto. Era só ela e a música, só ela e a poesia, só ela e o doce canto dos passarinhos em que avistou num ninho numa árvore perto da sua janela.

11h45min.
Fala de quem sentiu sua alma flutuando em plena harmonia.

Os cientistas sempre buscam por mais e mais fórmulas, para infindáveis coisas e mais e mais teorias de novas descobertas. Mas ninguém os informa que a fórmula mais preciosa é a da felicidade. E que ela não se encontra em nenhum frasquinho de experiência ou amostra. Ela se encontra lá no fundo do coração de cada um, escondida também na imensa imaginação que existe dentro de cada mente humana, nos desejos secretos de cada ser. A tal da dona felicidade está sempre conosco, somente esperando para que a procuremos. Procurar a felicidade é algo tão simples, que até entendo o porquê de poucas pessoas conseguirem achá-la verdadeiramente. Só se encontra felicidade quando se reserva um tempo para cantar, dançar ou fazer o que você mais gosta, sentindo seu corpo mais leve e a sua alma praticamente flutuando.

Nota da autora do texto: feliz aniversário de dezessete anos para mim. E que eu continue conseguindo sentir a minha alma praticamente flutuando em momentos de pura felicidade.

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