Esse texto brotou de um acordo entre eu e a @nasaneeds, onde cada uma deu uma pequena ideia de como deveria ser o texto e a assim deveríamos dar vida a ele. Primeiramente quero dizer que adorei isso, que estou curiosa para ver o texto dela e que quero isso mais vezes.
Hans tinha sido uma criança muito brincalhona durante a sua infância. Corria para todos os cantos, subia nas árvores, apostava corridas, brincava com os outros meninos da sua idade e com toda certeza, deixava seus pais loucos todos os finais de tarde, quando berravam pelo seu nome na porta da casa de madeira, que foi pintada pelo pai de Hans muitos anos antes.
Agora, sentado na cadeira de balanço que um dia seu pai usava, observando a mãe pela fresta da janela da cozinha a preparar o almoço, ele estava pensativo. Certamente estaria lembrando-se da sua infância agitada e feliz. Mas, algo o incomodava sempre quando se lembrava dessa fase de sua vida. Como se um vazio, que não era tão presente nos seus primeiros anos de vida, estivesse se manifestando somente agora, quando ele se preparava para sair da pequena cidade onde morava para virar um universitário na capital.
Um mês depois, Hans ainda sentia um vazio no peito, mas não o incomodava tanto como dias atrás, e então ele resolveu esquecer-se dessa sensação o máximo possível. Estava partindo para a capital, dando um último abraço em sua velha mãe, que insistia em não querer largá-lo mesmo sabendo que se o filho não partisse logo perderia o ônibus.
E então, Hans partiu para um mundo novo, deixando para trás as lembranças de uma fase feliz. Trazia a saudade dos pais junto consigo, mas estava decidido a obter seus objetivos como universitário. Depois de longas horas, ao chegar à cidade, começou a andar procurando algum hotel que ele pudesse pagar.
Caminhava pelas ruas daquela cidade tão grande, observando o movimento dos carros e das pessoas, que mais pareciam estar em alguma competição de quem andava mais rápido. Afinal, onde morou a vida inteira, era tão mais calmo, por isso estranhou um pouco no começo. Passou por várias ruas e deparou-se com uma ponte. Não eram como as pontes de onde moravam, todas de madeira e com histórias macabras contadas pelos moradores mais velhos da cidade. Era uma ponte bonita e nova, onde passavam várias pessoas certamente atrasadas para algum compromisso.
Hans observava tanto o movimento ao seu redor que não se deu conta da direção que ia, e esbarrou em uma garota que, depois de observar melhor, deveria ser um pouco mais velha que ele. Pediu desculpas aquela jovem e tentou ser o mais gentil possível ajuntando as coisas que haviam caído ao chão. Apesar de ela aparentar ser uma universitária, ia à direção contrária da faculdade. Mas ela poderia estar voltando, pensou Hans. Foi quando percebeu que a garota tinha perdido um de seus brincos. Não que fosse uma garota louca por jóias, mas contou-lhe que aquele brinco, fora uma foto pequena, era a única lembrança que tinha de sua mãe.
Hans, que não conhecia ninguém naquela grande cidade, resolveu ajudar na procura dos brincos. O mais difícil nessa busca era que a garota não lembrava se ao se esbarrem ela já estava sem eles. Ao meio de tantas pessoas indo e vindo por aquela rua, eles tentavam procurar discretamente o brinco de Janet. Ah, sim, esse era o nome daquela jovem que havia cruzado o caminho de Hans.
Eles tentaram ao menos dar alguns passos, mas era impossível fazer isso sem esbarrar em alguém. O sol já saia do céu, possibilitando a todos o espetáculo do pôr-do-sol, mas os transeuntes estavam ocupados demais para contemplá-lo, inclusive o próprio Hans. Foi quando ele, ao perceber que logo escureceria, começou a procurar em outra parte da ponte, bem no seu início. Afinal, queria ser prestativo com aquela garota, mas não queria ficar sem procurar um hotel para ficar.
Olhou para baixo novamente e avistou um pequeno e delicado brinco, caído num lado escondido da ponte, como se tivesse ido com pernas imaginárias para lá, porque de tantos lugares em que ele poderia ter caído, ali era o menos provável. Hans pegou aquele pequeno brinco e levou até Janet, que estava no final da ponte. Distraído como só, quando se ofereceu para colocá-lo novamente da orelha daquela moça, acabou batendo na pasta que ela levava na mão, e alguns papéis caíram ao chão juntamente com uma foto de aparência velha.
Janet se abaixou rapidamente para pegar a foto, Hans também se abaixou sempre na tentativa de ser um cavalheiro. No céu, o primeiro vestígio da noite já fazia as nuvens escuras aparecerem e as pessoas continuavam a passar pela ponte, às vezes xingando aquela dupla parada no meio do caminho. A jovem dos olhos verdes conseguiu pegar a foto primeiro, dando a impressão que Hans nunca saberia quem tinha sido a verdadeira dona daquele par de brincos. Mas, ao que ela pegou a foto, alguém esbarrou em Janet e Hans aproveitou a oportunidade para segurar a fotografia, para que a mesma não voasse longe. Se tivesse como, ele teria ficado branco como uma folha de papel, porque ficou sem reação alguma. Não sabia o que falar e nem pensar ao ver a pessoa que estava naquela foto. Mas, só sentia que aquele vazio que o incomodava às vezes tinha ido embora.
Deduziu rapidamente que aquela era a mãe da garota. Não ficou sem reação por aquela mulher ser linda, mas porque aquela mulher, aquela mulher que sorria naquela foto velha, era a sua mãe. Entendia agora o porquê de algumas vezes sua mãe ficar horas, inutilmente, procurando por um brinco que nunca achou. Mas como poderia? Como sua mãe podia ter enganado a ele e aquela jovem? E se ele nunca tivesse saído da sua cidade, nunca saberia que teve uma irmã? Aquelas perguntas atormentavam a cabeça de Hans, enquanto Janet ficou estática, sem entender o porquê daquela reação toda. Obviamente, ela não deveria saber de nada também.
Já tinha ouvido uma conversa de sua mãe com a sua tia, quando a mãe contava-lhe sobre um grande amor do passado, que teve que ser rompido porque seus pais não aprovavam tal romance. Mas nunca ouviu da boca de sua mãe que ela tinha tido uma filha. Nunca tinha conhecido seus avôs maternos, então, deduziu sozinho que eles talvez pudessem estar ainda vivendo naquela cidade enorme e que teriam cuidado de Janet. Eram dúvidas que brotavam em sua cabeça e pena por ter crescido longe daquela garota, por ela ter crescido longe de um lar com uma mãe.
Decidiu que não queria explicação alguma, pois sabe que isso deixaria a mãe magoada, e por mais raiva que estivesse sentindo, não tinha o direito de ferir os sentimentos dela. Mas para Janet ele teria que contar em algum momento. Decidiu que procuraria um hotel ainda naquela noite e no dia seguinte marcaria um café, a fim de contar tudo. Ficaria pensando em uma maneira de não parecer que ele estava delirando e pegaria algumas fotos da mãe que trouxe consigo. Não saberia a reação de Janet, mas tinha certeza de uma coisa: que ele não estaria sozinho naquela cidade, agora que tinha uma irmã, a irmã que nunca teve, morando tão perto.

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