Entre os acordes da vida.

Era mais uma daquelas tardes nubladas e chuvosas, onde a maioria das pessoas sai com a cara emburrada para ir ao trabalho ou ao colégio, porque preferiam estar em casa debaixo de suas cobertas. Além de estar um dia chuvoso, o frio também predominava nos últimos dias. Em meio a isso, numa casa onde havia um imenso jardim cercado por flores, morava um moço que encontrava nos dias calmos e cinzas a inspiração para compor algumas canções.

Era um rapaz apaixonado pela música. Assim como era pela leitura, apesar dessa paixão ser um pouco recente, ao contrário da música, que veio desde pequeno quando via o pai tocar violão. Achava magnífico o modo como aquele instrumento tão simples podia reproduzir um som tão bonito. Seu pai o ensinou algumas coisas, mas foi por sua própria vontade que ele aprendeu a tocar aquele instrumento antes de completar dez anos.

Aos quatorze ganhou um violão de presente de aniversário, comprado numa loja e tudo. O vendedor garantiu que era um dos melhores e seu tom marrom claro fez seus olhos brilharem ao o segurar pela primeira vez em seus braços. O garoto sentia-se incrivelmente tranquilo, com uma sensação de bem-estar tremenda quando começou a tocar ali mesmo na loja uma canção que seu o pai o ensinou. Todos os outros clientes presentes sorriam ao presenciar a cena.

Porém, um acontecimento imprevisível fez o brilho dos olhos de John sumirem ao ouvir uma notícia contada por seu próprio pai. De início o pai de John não queria estragar aquele momento tão feliz da vida do filho, mas sabia que poupá-lo da verdade não seria o certo a fazer. Sabia que em algum momento teria que ser franco com o garoto. Não tinha por que adiar, mesmo que isso poupasse que lágrimas estragassem o aniversário de seu filho, essas lágrimas teriam que ser choradas em alguma hora. Aliás, o pai de John sempre teve esse pensamento, sempre pensou que é melhor ferir alguém com uma verdade do que iludir adiando o momento de ser franco, ou pior, contando-lhe uma mentira. E foi por esse motivo que o sorriso que havia nos lábios de John e o brilho nos olhos se desmancharam no exato momento em que ouviu de seu pai a trágica notícia. Sua mãe havia morrido atropelada ao sair para o trabalho. Os olhos de John se encheram de lágrimas e voltou para a casa em silêncio com o pai. Naquele dia, foi a primeira vez em que viu a música como um refúgio da realidade.

Agora, cinco anos depois, John ainda lembrava-se da mãe, das inúmeras vezes em que ela o chamava para o jantar ou ficava admirando seu modo de no violão tocar. Lembrava-se vagamente do último sorriso que deu, antes de John ir até àquela loja comprar seu primeiro instrumento. Mas ele seguiu e seguia em frente. Encontrava nas noites frias e nos dias cinza sua inspiração. Não que nos dias de céu azul ele não escrevesse ou tocasse, só se sentia melhor e mais calmo quando os dias eram nublados.

Além de ter se refugiado na música, John alegrava seu pai, agora mais velho e com alguns problemas de saúde ao contar algumas histórias. Sua mãe era a encarregada de contar histórias para os dois quando ele era pequeno, então pensou que repetir esse hábito faria com que ambos estivessem mais próximos dela. Ele se arrepende de só ter tomado gosto pelos livros após acontecer uma tragédia com sua mãe, pois ela sempre quis tentar fazer com que o garoto se interessasse em ir à biblioteca da casa com ela e ler alguns livros durante as tardes que passavam juntos. Agora, arrepende-se de ter perdido tal preciosa oportunidade. Quanta coisa John não teria aprendido com o mundo dos livros e com companhia de sua doce mãe!

Esse moço que guardava tantas alegrias e mágoas aproveitava o frio e a chuva que haviam chegado a sua cidade para compor algumas músicas. Na verdade, há tempos vinha intercalando entre a leitura para seu pai, seu trabalho e o tempo para compor canções. Ele tocava em alguns bares da cidade. Não por tornar-se conhecido dos frequentadores, nem pelo dinheiro, nada disso interessava a ele. Seu objetivo era somente alegrar a noite de algumas pessoas com o que escrevia e com as melodias que criava.

Seu sonho era, assim como através da leitura ajudava a vida do seu pai ser um pouco mais feliz, conseguir através da música animar a vida de os mais diferentes tipos de pessoas. De levar suas canções a pessoas comuns, que tinham problemas, alegrias, sonhos e desejos, assim como ele também tinha. De levar suas canções a pessoas totalmente diferentes dele, mas que traziam na bagagem uma vontade em comum: refugiar-se e encontrar abrigo na melodia de alguma canção.

Porque John sabia muito bem que nenhum ser humano é igual ao outro, assim como todos temos alegrias e tristezas nessa vida. No entanto, ele sabia também que quem permite refugiar-se na música acaba se tornando mais feliz.

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