A rosa da solidão

        Em cima da mesa existia uma única rosa vermelha. Não dava para entender muito bem o porquê aquela rosa, que deveria estar fazendo parte de um buquê de rosas que colocaria um sorriso em muitas mulheres, estava fazendo ali, jogado ao vento. Mas jogado também estava o dono daquela flor solitária. Seu nome era Bernardo. Amante de astronomia e mitologia, sempre estava à procura de novas novidades acerca destes assuntos. Gostava de ficar por dentro disso, mesmo que para os olhos de outras pessoas isso talvez fosse besteira, algo irreal ou antigo demais para ser dada alguma mísera atenção.

        Aquele rapaz estava, nos últimos meses, um tanto desolado com a vida. Jogado em seu quarto nas noites vazias, fazia das enciclopédias velhas sua companhia. Arrisco-me a dizer que ele disfarçava a sua frustração com aquilo. Escondia dos outros e de si mesmo o preço de certas decisões ao longo de sua vida. Estava confuso, um tanto sem rumo. Assustado como os anos começaram a passar rápidos demais depois que sua infância foi embora. Num dia, pensou ele, estava brindando a chegada de um novo ano com uma taça de champanhe com sua ex-namorada. Agora, estava deitado em sua cama abraçado a uma enciclopédia velha, seis meses depois. Sentindo falta dos carinhos carnais e do jeito como se sentia ao lado dela, mas aliviado por poder ter sua personalidade de volta.

       Enquanto a chuva caía lá fora, Bernardo lia sobre mitologia grega. Aliás, era a sua preferida. Admirava e ficava empolgado de verdade quando lia sobre pensamentos de filósofos que fizeram parte da Grécia há milhares de anos. Os mais variados movimentos que este país agregou nesta parte da história. Inclusive o surgimento das Olimpíadas… Algo que sua ex-namorada e todos os seus amigos adoravam. Todo mundo gosta de assistir, mas ninguém queria saber de onde surgiu. Ele bem que tentou explicar um dia para eles o que aprendeu nos livros sobre isso, mas ninguém quis saber a fundo, contentaram-se com uma história pequena que a televisão os contou. Aliás, ele odiava televisão. Era de forte opinião que este meio de comunicação fazia uma lavagem cerebral nas pessoas. Mas, voltando ao assunto… Também lia sobre o teatro na mitologia, as deusas gregas… Tudo lhe inspirava de alguma forma. Pensou até em fazer teatro, mas era tímido demais para isso.

Talvez ele lia sobre o passado para esquecer o presente e para não se assustar tanto assim com a incerteza do futuro. Os dias passavam depressa demais, sem dó alguma de quem está perdido por dentro, confuso com a vida. Bernardo percebeu que as pessoas sempre reclamam que os anos passam rápidos demais, mas que elas preferem continuar reclamando a aproveitar o momento. Mas, ele iria criticar isso por quê? Se ele mesmo fazia isso frequentemente?

  A chuva perdurava lá fora. Bernardo foi pegar um gole de chocolate quente na cozinha, ou melhor, iria preparar um chocolate quente para si mesmo. Sozinho. Era a segunda vez que iria fazer isso naquela noite e que passava pela mesa de centro da sala e via aquela rosa parada, de certo modo pedindo atenção e de outro, tão esquecida quanto sua solidão. Levou consigo seu livro, dentro daquela casa, seu companheiro de plantão. Decidiu ficar por ali mesmo, na mesa da cozinha, tomando seu chocolate que estava quente demais e vendo algumas fotografias de astronomia. Galáxias, meteoritos, planetas… Tudo isso o fascinava. E era engraçado como coisas tão distantes o deixavam assim tão vivo, com tanta vontade de saber sempre mais, já coisas pequenas do dia-a-dia, um sair com amigos ou arrumar uma namorada o amedrontava. Ele estava preso em seu mundo paralelo e precisava encontrar um equilíbrio para sua vida.

        Mas… O moço gostava de viver nesse mundo paralelo, nesse mundo que tem verdade no faz de conta, no mundo que o instrui sobre assuntos diferentes. Tentou tocar violão para agradar a ex-namorada uma vez, mas foram algumas tentativas frustradas. Depois disso, passou a pensar mais em si mesmo, no que lhe fazia bem, no que o deixava em paz consigo mesmo. Tomava suas decisões com base nisso. Algumas radicais, outras banais. Às vezes vivia com remorso por causa de algumas, outras o deixavam aliviado e sorridente, o que era um milagre. O ver sorrir era raro.

         O rapaz tinha um medo danado do futuro e do que seria dele. Do que viveria? Como seria que ele estaria quando tivesse quase trinta anos? Com barba ou sem barba? Amando ou odiando? Com filhos ou jogando futebol com os amigos? Reclamaria que sua vida foi uma porcaria? Trabalharia para se sustentar e sobreviver, sem um único lazer? Qual dessas vidas iria ter? O cotidiano de caras dessa idade o deixava um pouco com medo de passar da melhor fase da sua vida. Ver que a vida passa rápido demais é assustador em certa idade. Às vezes ele tinha certeza que todos esses medos e dúvidas não faziam o menor sentido, e eram completamente distantes uns dos outros. Outras vezes ele os via todos juntos, no mesmo dia e na mesma hora, querendo amedrontá-lo.

         E a única forma que o moço encontrava para se libertar de qualquer dúvida e qualquer medo era lendo sobre mitologia e astrologia. Era tomando aquele chocolate quente e ouvindo a chuva… Era vivendo o presente sem perceber, era sendo ele mesmo sem mudar para agradar ninguém (talvez fosse por isso que ele estivesse solteiro), fazendo o bem para si mesmo. Mas é uma boa forma, ele tem que admitir.

        Mas quanto à rosa? Que durante esse tempo inteiro ainda continuou jogada em cima da mesa, esquecida num velho canto? Esquecida até para a própria escritora, que mal a mencionou, a não ser no início da história. A rosa sozinha, que deveria estar em um buquê, agora se despedia daquela casa. Bernardo, protegendo-se da chuva com uma capa para a mesma, foi até à varanda vizinha e depositou aquela flor esquecida, mas mesmo assim ainda muito bonita, na porta de uma mulher que também morava só. Ao menos ali talvez ela tenha uma serventia melhor. Seria companhia de alguém que realmente precisa e a admiraria. Porque aquele cara chegou à conclusão de que não devemos ficar onde não somos bem-vindos ou não nos sentimos bem. Não devemos fingir que gostamos de algo que na verdade nos mata aos poucos por dentro. Seria melhor para aquela flor ter a companhia de uma mulher que poderia cuidá-la muito melhor do que ele.

         Então Bernardo refletia consigo mesmo após voltar para a casa. Molhou-se um pouco, é claro, a chuva não dava trégua lá fora. As gotas caíam cada vez mais fortes e mais rápidas. Refletia que ninguém merece a solidão. Nem mesmo uma rosa avulsa. Ele não merecia a solidão… E se sentiria mal se fizesse vista grossa para outro ser solitário. Foi por isso que parte de um de seus medos se foi com aquela atitude. Mas bem sabe aquele menino que muitos ainda o acompanham. E o acompanharão para o resto de sua vida.

         O truque que ele deve usar é ser feliz com o que gosta, é gostar da boa solidão, da necessária, daquelas que nos deixam bem ao contemplar do silêncio. Mas não se entregar à solidão doentia, não se trancar para vida, não aceitar sobreviver, mas sim lutar com todas as forças que se tem para que possa viver. E então, ao som da música calma que tocava em seu quarto, Bernardo dormiu sorrindo pela primeira vez, com o coração leve e consciência limpa. Pronto para uma fase nova em sua vida.

0 comentários