O dia amanhecia e Yulia levantava para tomar café, um dia calmo e com o sol ameaçando aparecer no céu e iluminar a vida das pessoas que moravam naquele lugar. A moça gostava do sol, seu sorriso era mais forte quando o danado estava presente em seus dias. Estava feliz, sempre acorda sorridente aos sábados pela manhã. Essa moça sorridente mora em um prédio. Por ela, moraria numa casa enorme, daquelas casas que os cômodos não são muito grandes, porém ao redor da mesma se tem a liberdade de devanear no jardim, olhar para o céu, escrever rimas bobas e sorrir sem ter por quê. Sentia falta disso, parecia que parte de sua liberdade era roubada morando ali. Mas não se dava por vencida, vivia a vida com uma imensa alegria.
Mas naquela manhã, apesar de feliz, ela estava um pouco estranha, apesar da presença dos raios de sol entrando de mansinho pela janela de seu quarto. Estranha, com um frio na barriga e ao mesmo tempo um vazio no peito. Nos últimos dias estava sonhando com coisas que queria a muito que acontecesse. Seus sonhos eram tão intensos que ela acordava não sabendo ao certo se aquilo realmente não era real.
Decidiu sair de casa, queria pegar um ar. Pegou um casaco para aguentar as frias temperaturas do inverno, mas não muito grosso, afinal o sol presente não deixava o ar ficar tão gélido. Decidiu dar um volta, sair sem destino, simplesmente passear. Vagou pelas ruas em busca de um sentido para tantos sonhos intensos, tão bonitos e tão tristes ao mesmo tempo. Mas parecia que quanto mais ela andava, mais confusa sua cabeça ficava. Suas ideias não conseguiam achar uma explicação óbvia para aquela situação toda. Nem ao menos tinha se lembrado de como havia começado. Uma semana, dois dias, um mês? Somente ontem, talvez, não sabia ao certo dizer.
Ela só queria encontrar uma explicação óbvia, ir para casa, deitar em sua cama e dormir em paz. Os sonhos ao mesmo tempo em que eram bons, deixavam Yulia triste por saber que não passavam de mera ilusão. A moça caminhou pelas ruas da cidade, até se cansar e voltar para casa, quase beirando três da tarde. Tinha comido por lá mesmo, já que em casa também comeria sozinha. Sozinha. Muitas vezes pensava que esse era o seu destino. Não, não era um drama barato, tinha lá seus motivos. Via as pessoas ao seu redor felizes e ficava se perguntando quando ela teria aquilo também. Aquela alegria, o andar de mãos dadas, o se transformar em um só. De certa forma, sentia. Sentia o frio na barriga, sentia a imaginação ir a mil, sentia-se suspirando… Por seus sonhos. Por seus sonhos estranhos e confusos. Apaixonou-se por um estranho, essa era a explicação mais óbvia que poderia encontrar.
Todas as noites ele estava lá, em seus sonhos, mostrando a ela que a felicidade podia existir. Via seu rosto durante os sonhos, mas após acordar, lembrava-se apenas de alguns borrões em forma de um rosto humano. Nada mais do que isso. Ela era apaixonada por um cara dos seus devaneios, que nem sequer existia.A noite começava a cair e ela não sabia se aquilo era bom ou ruim. Sentia alegria porque estaria perto dele, mas se sentia angustiada porque aquilo iria acabar quando o sol nascesse. Então, Yulia se colocou a fazer o que realizava todo nascer da noite: escrever. Escrevia para ver se aquilo se tornava real, se a pessoa de seus sonhos poderia passar a existir.
‘’Caminhamos eu e você nessa estrada. Éramos dois, apenas nós dois. Você segurava a minha mão e me perguntava se eu estava feliz… É claro que eu estava. Você era sinceramente o que eu sempre quis. E me perguntava se eu realmente merecia você. Seu sorriso, sua voz, seu rosto tão lindo… Ficavam em minha mente. Se eu estivesse longe de você, de algum modo o sentiria comigo, mesmo que em meus pensamentos.
Mas eu não estava longe, você estava ali comigo, naquele instante olhando em meus olhos e me deixando sem graça. Você sempre, sempre me deixa sem graça com esse jeito de olhar pra mim. Eu fico imaginando o que o fez olhar assim tão intenso para uma garota como eu. Você e eu andamos por aí, tomamos sorvete e rimos à toa. Sabia que seu sorriso é contagiante? E sim, eu sei que você fica com vergonha quando eu te elogio. Mas acredite meu bem, é a mais pura verdade. ’’
Perdia a conta de quantos trechos de cartas que nunca seriam enviadas ela escrevia. Mas sabia que aquilo era sua forma de canalizar toda energia que seus sonhos lhe passavam. Sentia na escrita um poder enorme de realização. Escrevia e devaneava sobre seu amor, noites e mais noites escrevendo antes de sonhar. Yulia escrevia porque gostava de pensar que somente assim talvez aquele cara, que acordada ela não lembrava ao certo os traços do rosto, aquele cara que a olhava intensamente e demonstrava desejo e carinho, poderia algum dia aparecer em sua vida e fazer todos os seus escritos e mais longos sonhos se tornarem reais.

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