O despertar de Júlia

Julia viva tranquilamente numa
cidade pequena e pacata, daquelas em que todos se conhecem e sabem da vida um
do outro. Trenice era o nome da cidade onde morava, desde pequena criada pelos
avós, já que seus pais sofreram um acidente quando ainda era bem pequena. Sua
avó era mais ríspida, sempre tratava a neta de maneira dura. Não sabia
demonstrar muito que sentia, fazendo o que Julia pensasse às vezes que não era amada
por ela. Já seu avô era um homem de coração mais aberto, tão fascinado pela
ternura que o sorriso da neta lhe passava, que era impossível que não
demonstrasse esse amor. 
Seu Ruy, avô da menina, havia
sido professor quando mais novo, porém muito ano depois, mesmo aposentado, ele
ainda cultivava o amor que tinha por lecionar, principalmente quando juntava
esse amor com a leitura. Tinha lá seus escritos, mas gostava mesmo era de ler e
mergulhar nas histórias que encontrava em seus livros.  Desde cedo percebeu que sua neta não tinha
tanta empolgação quando ele falava que iria ensiná-la a ler. Não queria importo
isso à Júlia é claro, mas era um fato que o deixava chateado. A avó não se
importava tanto assim com que Júlia viria a gostar ou não conforme ficasse mais
velha, contando que se tornasse uma boa pessoa, já estava mais do que bom. 
Alguns anos se passaram e o avô
começou a ensinar a menina a ler, já que no ano seguinte ela iria para a
escola. A frustração dele era evidente, por mais que tentasse fazer com que
fosse algo divertido e mágico, a pequena Júlia tudo aquilo como uma obrigação
chata. Mas havia um local da casa que ela ainda não conhecia e seu avô ainda
não tinha lhe mostrado. Um cômodo secreto, que nem sua esposa tinha acesso. Agora, já mais velha, Júlia sabe que quando ele mostrou o local
para ela, já começara a perder as esperanças com sua missão.
O avô a levou, então, para seu
cômodo preferido da casa, em um belo fim de tarde de domingo, quase com o sol
se pondo e a cidade se preparando para adormecer. Desceu até o porão, segurando
as mãozinhas de Júlia, dizendo: 
– O vovô vai te mostrar um
tesouro que guardo há anos.
– Um tesouro, vovô? Como nos
filmes?
– Não exatamente… Mas tem ainda
mais valor. Vamos, venha comigo.
Como qualquer outra criança de
sua idade, a pequena se viu curiosa para descobrir do que o avô estava
falando.  E então os dois entraram no
cômodo, e Júlia pode descobrir, assim que seu avô acendeu as luzes do que se
tratava o tal tesouro. Havia muitas estantes no local, vários marcadores de
livros em cima da mesa de centro. O tesouro, mesmo que Júlia não soubesse ainda
o que significava aquela palavra, tratava-se de uma biblioteca.  Lugar onde seu avô via como um refúgio na
casa. 
A menina tinha todo o direito de
não se interessar por livros, mas admite que ficou um pouco impressionada com a
revelação. Sendo assim, seu avô que não era nada bobo, tratou de perguntar:
 – O que achou?
– Como chama isso, vovô?
– Biblioteca, Júlia. Bi- bi-bli-
o- te-ca. (Reunião de livros, ordenadamente
dispostos. Estantes ocupadas por livros. Casa ou
lugar, onde se depositam livros, para uso público ou particular.)
E assim, essa foi a primeira
palavra que ela realmente gostou de ouvir seu avô soletrando. Mas Júlia era uma
criança difícil e não se mostrou fascinada assim tão fácil por aquele cômodo e
todo o mundo novo que a esperava com os livros. Seu avô mudou o lugar de
ensiná-la, agora aprendiam na própria biblioteca. Ela já aprendera o básico,
como juntar as letras e formar frases curtas e quando iniciasse o colégio, não
teria maiores dificuldades nesse quesito.
Falar sobre a mudança de Júlia
com os livros é algo bonito e até um pouco complicado, pois os esforços que seu
Ruy fazia demoraram um bom tempo para darem resultados. Ele não queria impor
que sua neta gostasse de ler, ou que escrevesse, mas se isso acontecesse
sentiria que todo o esforço em mostrar-lhe esse mundo literário maravilhoso não
havia sido em vão. Com o passar dos anos e de seu início no colégio, ela
precisou ficar mais próxima dos livros e em muitas vezes agradecia timidamente
pelo incentivo que ganhara em casa, pois tirava de letra as lições da escola,
apenas com algumas dificuldades, normais para uma criança de sua idade.
Entre um trabalhinho e outro, sua
professora indicava leituras à turma e as idas à biblioteca da escola começaram.  Lá encontrou livros com didática para sua
idade e a maior alegria de seu avô foi quando ela apareceu com um livro
emprestado da biblioteca e começou a ler sozinha, dentro da biblioteca, deitada
na cama em que tinha ali. Júlia havia despertado para a leitura, sentia pela primeira vez que era possível
viajar e conhecer um mundo novo com os livros, sem tirar os pés da cama. Isso
começou a fasciná-la e ela ia lembrando-se dos ensinamentos de seu avô quando
era mais nova, e achava uma grande tolice não ter gostado daquilo desde o
início.
Seu avô passou a desconfiar das
idas da neta sozinha à biblioteca, mas não se opusera, pois a mesma ainda o
chamava de vez em quando, principalmente quando queria que ele lesse histórias
para que ela tirasse um cochilo. Mas foi em uma dessas idas sozinha à
biblioteca do porão da casa, que leu tanto que ficou muito cansada, quase pegou
no sono quando não acreditou no que estava acontecendo bem na frente de seus
olhos. Esfregou suas mãos nos olhos, como se precisasse saber que aquilo
realmente estava acontecendo. Suas expressões variavam entre surpresa e
espanto, mas nunca medo, apesar de ser extremamente estranho o que estava
acontecendo.
Havia muitos livros naquela
biblioteca, alguns didáticos, outros bem velhos e alguns recentemente
adquiridos. Porém, todos eles fizeram Júlia não acreditar no que acontecia.
Onde já se viu os livros começarem a falar com ela? Os livros que foram de seu
avô! Diziam-lhe que um dia ela também os leria, e eles lhe fariam viajar e
tornariam sua vida melhor, assim como fizeram com seu avô. Às vezes todos
falavam ao mesmo tempo, deixando a menina confusa, mas ao mesmo tempo ela
estava admirada. Aquele momento durou pouco, pois seu avô interrompeu sua
leitura para avisá-la que o jantar estava pronto, e ela mesma zonza,
levantou-se e correu até à cozinha, tentando processar do que aconteceu, mas
preferiu não comentar nada, poderiam pensar que estava com febre e precisaria
tomar remédios ruins. 
Depois daquele dia, tornou-se
ainda mais apegada e após seu quarto, a biblioteca era o cômodo preferido da
casa. Ia também junto de seu avô, que sorria contente por Júlia ter
naturalmente e de vontade própria (ela era uma criança difícil, e quanto mais
seu avó queria fazê-la gostar de ler, mais não conseguia. Foi quando desistiu
que isso aconteceu), adentrando em um mundo que o fez e o faz muito feliz. Os
livros na vida dele haviam sido grandes amigos, presentes em horas de tédio, em
horas de estudo e até mesmo em horas em que nada ia bem. Bastava um bom livro
para esquecer, pelo menos momentaneamente, das coisas ruins que estariam
acontecendo. Para seu Ruy, ver sua pequena assim tão próxima dos livros foi
lindo. Ela tinha tanta vida pela frente, e mesmo que o amor tenha crescido
naturalmente, após ele desistir de fazê-la gostar, ficava feliz por dar essa
oportunidade à neta, coisa que ele não teve. Aprendeu sozinho a gostar e amar
os livros, tornando-os parte de sua vida.
Júlia agora é moça vivida e não
virou escritora, nem professora, nem qualquer outra profissão relacionada ao
universo literário. Depois de crescida descobriu paixão por outras áreas, mas
nunca deixou seus livros de lado.  Era
uma forma de viajar sem pagar (já que era de cidade pequena e raramente viajava
de verdade), como também era uma forma de lembrar-se de seus avôs, principalmente
de seu avô, primeira pessoa a lhe mostrar o universo maravilhoso que a leitura
pode oferecer, e também fez com que ela tivesse o desejo de construir sua
própria biblioteca, pois nunca esquecera o episódio mágico que vivera anos
antes em uma.
p.s: finalmente um texto em terceira pessoa. Espero que gostem e não reparem a demora entre um texto e outro, as coisas voltaram a ser corridas por aqui. E sim, as últimas postagens tem como tema base os livros, já que estou na minha melhor fase como leitora assídua.

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