Pingos de nostalgia

A chuva caía lá fora e algo invadia os sentimentos da moça, sem pedir licença ou tão pouco se importar com o estrago que isso faria. A cada pingo de chuva que caía ao chão, ela tinha suas lembranças sendo afloradas, tendo essa chuva um gosto de nostalgia. O vento lá fora era forte e as nuvens carregadas indicam a fúria daquela chuva. Esses dias chuvosos eram um prato cheio para essa tal de nostalgia. Deitada em sua cama, com seu livro de cabeceira bem ao seu lado, deixou-o de lado e sentiu que suas memórias começaram a aparecer em sua mente, assim, de repente.

Pegou-se lembrando do passado. Passado que quase estava se apagando da memória e, de uma hora pra outra, primeiro de mansinho e depois aparecendo insistentemente, aflorou e ficou nítido na sua mente. Coisas de dois, três e até dez anos pareciam estar acontecendo naquele momento, tão forte era a memória que a moça tinha. O primeiro dia de aula, o dia que aprendeu a ler, o primeiro poema escrito, a primeira amizade, o primeiro beijo, o primeiro dia no ensino médio, o primeiro emprego… Lembranças se misturavam ao som da chuva que embalava aquela fria noite.

O som da chuva lá fora e a música nostálgica que escolheu como trilha sonora da noite contribuíam para isso, já que ela tinha se rendido a este sentimento e deixou que as lembranças fossem a estrela daquela noite.
Sabia que a nostalgia tinha seu lado perigoso. Mas estava lidando a tão pouco com ela, que às vezes deixava se levar pelo o que lembrava. Tinha vontade de que fosse como nos filmes e nas novelas, em que a cena que já passou parece tão mais real  quando relembrada pelo protagonista da história. Queria com todas as forças voltar em algumas lembranças, fazer mágica e voltar para aquele ano, desejou viver tudo novamente… Quem sabe até alterar algumas coisinhas. Mas, já por outro lado, preferiu que algumas não tivessem vindo à tona. Sentia uma mistura de sensações a cada recordação, a cada pingo de chuva que caía lá fora, enquanto tentava se manter aquecida com seu chocolate quente, enrolada em um bom cobertor.

Conforme a chuva caía, lembrou-se também que a escrita já tivera mais tempo em sua vida e quis que isso voltasse, mesmo que fosse aos poucos, bem aos pouquinhos mesmo. Lamentou que a falta de tempo e a correria a afastassem de fazer coisas que a deixavam bem. Lamentou também crescer. Lamentou ter que deixar algumas coisas para trás. Pegou-se pensando uma época que não volta mais. Assustou-se mais em não querer voltar pro tempo que passou, do que com a tempestade raivosa lá fora. Quis seguir adiante, quis saber o que estava por vir, construir um futuro bom, andar lado a lado com a nostalgia, mas seguir adiante. Sentia medo, mas também se sentia confiante.

A nostalgia a acompanha todos os dias, mas ela continua seguindo em frente, tomando a decisão de não deixar que a chama da escrita se apega dentro dela com o tempo. 

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