O cenário era propício para leitura: cama, um gato, cobertas quentinhas e muita, mas muita
chuva caindo lá fora. Para ser mais precisa, uma tempestade demorada caía a toda força; Ana
não se importa, pois ouvir os pingos de chuva caindo lá fora fazia com que ela se desligasse
um pouco do mundo. E conforme a caía a chuva, ora tórrida, ora calma, avançava mais e mais
páginas, mais e mais capítulos… Terminaria o livro quando menos esperasse se continuasse
desse jeito. Seu gato Ringo a olhava cansado e mal humorado por conta do tempo ruim, mas
logo caiu no sono.
Na escrivaninha do quarto, guardava os livros que lia, semana após semana, na esperança
de se desligar um pouco do mundo real. Sua forma de fugir um pouco dos de todos os
contratempos que o mundo possuiu e todas as pessoas passam. Algumas, entretanto, acabam
se agarrando a algo para fazer com que sua passagem pela Terra seja mais significativa; no
caso de Ana, com toda certeza, a menina se agarrou aos livros e então se tornou aberta a
todas as possibilidades, quase infinitas, que eles pudessem trazer. Uma dessas oportunidades
foi a escrita. Escrevia pequenas e tímidas histórias, mas progredia a cada uma que terminava.
Horas e horas tinham passado, a chuva insistia em cair e sentia seus olhos cansados, porém
não parava de ler. Leu tanto que confundia realidade com ficção, achando-se a protagonista
da história. Em certo momento, via-se diante de uma imensa praia, com várias pessoas ao seu
redor, rindo e contemplando o calor do sol. Em outra, sofria o mesmo drama do moço que
perdeu o amor da sua vida, pois se comportou de forma estúpida e babaca, como acontecem
em alguns romances. Gostava dessa mistura, de confundir os dois mundos. Viajar sem sair
do lugar. Não sabia se era a expressão correta… Só realmente se sentia como personagem
principal de seus livros. Nem sequer conhecia nenhum autor, mas sentia que eles a conheciam,
pois escreviam exatamente o que ela queria ler. Veja bem, Ana não era uma garota alienada,
sonhando com finais felizes ou tudo que histórias românticas podem trazer; pelo contrário,
sabia bem a hora de separar os dois mundos, de voltar ao real e cancelar sua viagem para
encarar, muitas vezes, uma dura realidade.
Ana vivia com sua família numa casa pequena, porém confortável, sem muitos problemas com
os pais. Porém sua relação com a irmã não era muito boa; duas não conseguiam se suportar
por muito tempo no mesmo ambiente. Boa parte da implicância vinha de Cecília, a irmã mais
nova, que passava pela fase da pré-adolescência e achava que todo e qualquer conselho que
ganhasse era bobo e sem fundamento. Até admirava toda a paixão que Ana tinha pelos livros
e por todo esse universo, pois sentia o mesmo pela música. Mesmo com pouca idade, já se
arriscava com algumas canções no violão, tinha seu quarto decorado com frases e trechos
de músicas, como qualquer menina da sua idade teria. A diferença é que, ao invés de colar
retratos de ícones musicais nas paredes do quarto, escrevia seus trechos preferidos, de
músicas que realmente fizessem sentido para o que estava vivendo. Ambas as irmãs tinham
sua forma de ficar melhor. Cecília ouvia músicas que retratassem o que sentia naquele
momento, queria viver a dor ou a alegria, mas sentia vontade de se perder numa página de
livro, esquecendo-se dos problemas como Ana conseguia fazer. Só não gostava de admitir isso,
pois era pra lá de orgulhosa, num nível oito, projetando isso numa escala de zero a dez.
Ana lia histórias que falavam sobre irmãs confidentes e sentia muita vontade de se aproximar
de Cecília. Sabia que teria que ceder, pois a pequena era difícil, já não seria fácil se aproximar,
sequer imagina esperar que essa atitude viesse da irmã. Ela só não sabia que Cecília vinha
passando por um momento em que também desejava muito o carinho e aproximação dela,
pois suas colegas começavam a contar sobre como suas irmãs mais velhas eram legais. Seus
pais também não aguentavam mais sentir que suas filhas não tinham boa relação, percebiam
que faltava muito pouco para que elas conseguissem um equilíbrio.
A atitude de dar o braço a torcer, contrariando toda a lógica, partiu de Cecília. Estava
apreensiva e um pouco receosa, pois não imaginava qual seria a reação da irmã. Será que
a colaria para fora do quarto? Ou fingiria que não percebeu sua presença? Não dava para
prever, havia muitas possibilidades para qual seria a reação a essa aproximação. Certa hora
daquela noite chuvosa viu uma única luz acesa na casa, que vinha do quarto de sua irmã;
imaginou é claro, que Ana estivesse absorta em mais um de seus livros, mas se surpreendeu
quando a flagrou com um caderninho na mão, não parando de escrever. Cantarolava baixinho,
mas não dava para entender bem o que. Quando Cecília bateu de leve na porta, com medo
da sua irmã estranhar ou então a expulsar do quarto, Ana não entendeu nada. Mesmo assim,
permitiu que a irmã entrasse e as duas conversaram de início falando sobre a escola, depois
sobre o futuro e depois sobre o que Ana tentava escrever, a emoção das duas era nítida em suas falas.
Conforme conversavam, os olhos iam ficando cansados e o sono chegava. As duas dormiram ali mesmo no beliche e com um sorriso tímido em seus rostos, aninhadas ao gato da família.
No dia seguinte já não chovia e os pássaros cantavam lá fora, anunciando mais um início
com o sol iluminando a cidade. Porém para as duas irmãs, o som dos passarinhos lá fora fez
com que acordassem com um desejo de recomeçar. Não digo que logo de cara se tornaram
confidentes e melhores amigas, pois para isso demandaria tempo e confiança, de ambas
as partes. Mas o clima da casa já ficara diferente e leve. Dessa relação, mal sabiam elas,
poderiam se completar, juntar o dom das duas e criar uma bonita canção, combinando música
e escrita. Ana escreveria, enquanto Cecília transformaria em melodia as palavras que sua irmã
emitisse; poderia até dar pitacos e ajudar a compor a letra. Por enquanto isso só acontecia na
imaginação dos pais das meninas, mas se continuassem a trabalhar nessa relação e se a paixão
pela literatura e a música continuassem cada dia mais em evidência naquela casa, Ana e Cecília
formariam uma bonita parceria, muito além dos laços sanguíneos.

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