O fantasma da minha ópera.

E as teclas estão ali, esperando serem tocadas na esperança de formarem notas e levarem música ao ouvido de quem estivesse por perto. Mas as notas não saíam sozinhas e tampouco eu tinha vontade de cooperar com elas. Meu ânimo, havia ido embora, quem sabe junto com meu ex-amor. Desde sua partida, as notas, os refrões de qualquer instrumento não são mais os mesmos. A melodia é triste e a letra da canção indica solidão. Solidão profunda em mais uma noite solitária. O que me salva, ou salvava, eram as notas musicais. Poesias cantadas, música para meus ouvidos, no real sentido da expressão.

As saudades, apesar de tantas falas de ódio e indiferença, falam mais alto quando em casa estou sozinha. É perceptível que consigo disfarçá-la ao longo dos meus dias, mas as noites são sempre embaladas em tristes canções, quando consigo tocá-las.
Nem para tocar em barzinhos à noite eu serviria nessa situação. Perdia-me na melodia, errava as notas, trocava refrões. Meu corpo estava presente naquele momento, porém meus pensamentos voavam sem assas pelo mundo a fora. Desse jeito não teria como alguma nota sair certa. Não teria como produzir nenhum tipo de música.

As pessoas esperam ansiosas pelo som produzido pelos meus dedos e pela minha voz embalando suas canções preferidas. Elas depositam confiança e admiração em mim e sinceramente, não sei se mereço isso. Não tenho honrado ultimamente meu compromisso para com a música. E o motivo eu sabia muito bem. Tu que me atormentava todos os dias parecendo um fantasma. Soava tão irônico que poderia chamá-lo de fantasma da minha ópera.

O fantasma da minha ópera seria um título razoável para isso que eu chamo de carta. Mas fique tranqüilo, pouparei o teu trabalho de amassá-la e ir até o lixo. Não enviarei, aliás, o que mais tenho feito ultimamente é escrever essas cartas ridículas enquanto poderia estar dedicando o tempo inteiramente a mim. Mesmo não estando mais comigo tu ainda queres exclusividade da minha parte e o pior de tudo é que tu, de alguma maneira, consegues.

Faz nascer ou desperta dois sentimentos que eu havia jurado enterrar. O ódio e ao mesmo tempo, o amor por ti. São sentimentos opostos, porém intensos. Intenso é o que eu ainda sinto por ti. Oposto deve ser o que tu sentes em relação a mim. Será que ainda lembra quem sou? Tenho minhas grandes dúvidas sobre essa pergunta. Vindo de ti, espero o pior. Agora eu aprendi a esperar o pior de ti e não machucar-me tanto. Sempre confiei e depositei em ti os mais sinceros votos de admiração e sempre a queda foi maior. É aquela típica história de que quanto mais eu esperar das pessoas, mais acabarei me decepcionando. Pelo menos ter estado contigo serviu-me para aprender alguma coisa.

E agora eu permaneço aqui inerte, nesse início de noite gélido e cativamente. Eu poderia muito bem arrumar-me para sair ou simplesmente ir lá em cima e pegar as folhas indicando as notas musicais que eu precisaria tocar. Mas algo me impedia. Ao menos eu tinha vontade e condições de colocar uma música para tocar. Não era nada agradável estar sozinha, lembrando de tantas coisas, com um sentimento de inferioridade perante as notas musicais. Músicas, pelo menos eu tinha o direito de ouvir. E então eu novamente sentei, observei e chorei. E passei o resto do dia inerte, olhando pela janela, esperando o anoitecer e a minha oportunidade para ver as estrelas e quem sabe, conseguir avistar a constelação falsa que tu tinhas me mostrado.

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