Era tempo frio de inverno, junho estava chegando ao fim, o vento era gélido o bastante para fazer com que as pessoas que andassem na rua, abusassem de seus casacos mais quentes, na tentativa de aquecerem-se. Era relativamente um dia comum, não havia nenhum feriado para ser comemorado e assim, a cidade tinha o mesmo ritmo de sempre. Pessoas praticamente correndo para lá e para cá, buzinas, fumaça saindo dos veículos, tudo feito com muita pressa, o relógio sendo sempre o inimigo das pessoas da cidade, que lutavam contra o tempo, para poderem fazer todas suas tarefas diárias.
Em uma casa, em um bairro afastado da confusão que havia no centro da cidade, morava Alice, que era apenas uma criança e não conseguia entender porque os adultos andavam tão rápidos, ou porque ninguém tinha tempo para brincar, rir, conversar… Ela achava-os chatos, mas adorava seus pais. Estes, na visão da menina, eram os únicos adultos que sabiam ser criança de vez em quando, quando ela pedia.
Alice era uma menina alegre, mas muitas vezes solitária. Tentava ao máximo esconder a solidão dos pais, pois sabia que os dois se esforçavam para suprir sua necessidade de carinho. Então, a menina afundava-se em livros, filmes e em seu diário. Seu melhor companheiro, depois de seu gato Erik, com quem brincava quando seus pais não estavam junto a ela.
Adorava o inverno, divertia-se ao colocar várias blusas de lã e suas botas elegantes, arrumava o cabelo (nessas horas, queria parecer-se com a mãe) e colocava um laço de fita branca no mesmo. Em certa manhã, Alice arrumou-se elegante como sempre para sair com a mãe. As duas iriam até o centro da cidade, comprar algumas coisas para a festa de aniversário da menina, que era no próximo mês, a mesma completaria seus dez anos de idade. Achava engraçado e importante o fato de estar a dez anos neste mundo.
Ao chegarem ao centro da cidade, caminharam entre as ruas, muito diferentemente das pessoas que passavam por ali. Apreciavam vitrines e sorriam, estavam agindo diferente de todas as pessoas daquela avenida.Foi isso que despertou a atenção do garotinho Lorenzo, que estava caminhando com seu pai. Alice parou em uma loja de doces com sua mãe, ali iriam comprar o que faltava para seu aniversário, sentira que alguém a observava e se incomodava com isso, até o momento em que seu olhar virou fixamente para um garotinho loiro, um pouco mais alto que ela, que aparentava uns onze anos, com os olhos castanhos claro, que não parava de olhá-la e não conseguia esconder o longo sorriso que tinha nos lábios.
Não conseguiu entender o porquê, porém, quando olhou nos olhos do garoto, deixou escapar de seus lábios, um tímido sorriso, e seus olhos brilhavam como se fossem alguma pedra preciosa. Amaram-se (mesmo sem saber o significado dessa palavra tão forte), naquele instante. O trânsito havia parado e as pessoas não mais importaram. Amaram-se no olhar, amaram-se no sorriso, amaram-se pura e inocentemente. Puderam sentir uma faísca do primeiro amor, que produziu borboletas na barriga de ambos. É claro que, os dois não entendiam nada, afinal, eram muito novos para isso, mas sabiam que não era em vão, e que algo os ligava. E então, naquele dia de inverno, Alice voltou para em casa e tornou-se uma menina diferente, alegre e sorridente. O mesmo aconteceu com Lorenzo, que havia explicado ao pai o acontecido, mas o mesmo não deu muita importância.
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É novamente final de junho, o frio está mais frio do que há sete anos, as ruas estão mais congestionadas e as pessoas continuam correndo contra o tempo. Crianças continuam descobrindo, da forma mais inusitada possível a pequena faísca do primeiro amor, e muitos adultos não conseguem mais encontrar um meio de exercerem, de vez em quando, a criança que há dentro de si. Mas algo está mudado nessa cidade. Lembram de Alice e Lorenzo? Há um ano, eles se encontraram novamente, não conseguindo se reconhecer logo de cara, mas sentiram como se já se conhecessem. O tempo passou e à medida que eles foram conversando mais, aquela faísca de primeiro amor renasceu, e eles intensificaram esse sentimento tão difícil de ser compreendido.
E o final feliz foi presente nesse texto. Mas, não podemos nos esquecer, que os clichês também podem acontecer na vida real. Essa história pode ser real pra você. O clichê pode ser real, mas o final feliz, isso nós só descobrimos com o tempo. E se irmos além do final do texto e por acaso esse amor não der certo, não tem problema algum, apesar de mais intenso e marcante, o primeiro amor não necessariamente é o único na vida de todos.

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