Os versos cantados e declarados haviam sido jogados ao lixo e somente se encontravam juntos naquele instante como um pretexto de um beijo de despedida. Na verdade, todas as vezes que estiveram juntos havia algum pretexto para tal acontecimento.
Ouviam a doce melodia que era o fundo ao trágico fim. Pedaços de cartas rasgadas, aqueles papéis não faziam mais sentido algum, pois o amor, o amor havia acabado. Ou será que ele nunca havia existido? Uma linda e romântica paixão fazia parte desse namoro, beijos e abraços intensos eram dados em público, sorrisos e risos de felicidade eram o que podíamos contemplar ao vê-los juntos.
Nunca soubemos, afinal, a realidade dessa história de amor. Ou de paixão, não sei bem explicar. Sou mera expectadora e ainda estou contando isto a vocês, não peçam demais, é meu único pedido. Noites perdidas escrevendo versos e canções, experimentando a melodia ideal para a amada. Dias perdidos desenhando corações e enfeitando as cartas dirigidas ao amado. Um belo romance. Um triste e belo romance que se acabou.
Porém, o mais bonito dessa história, é a necessidade dos corpos se encontrarem, do beijo, do abraço, do toque suave na pele um do outro. A necessidade de estarem juntos, ao menos uma última vez. Poderia não ser a última, poderia não ser assim. Mas às vezes, forçar a barra só torna as coisas piores. Queriam um final belo. E assim estão o tendo. À medida que a noite cai, a chuva vai tornando-se mais forte, o frio vai se tornando intenso demais para ficarem lá fora.
Não sabem como, mas os beijos tornaram-se necessários e o que era para ser apenas um, repetiu-se vezes incontáveis. Em meio a tantos beijos, não reparam quando haviam aberto a porta e já estava dentro de casa, uma tentativa de protegerem-se contra o frio, ou uma desculpa para sentirem o calor de seus corpos. Deitaram-se na mesma cama e dormiram abraçados, sentindo a presença um do outro, sentindo – em meio a tanto frio- o calor do amor. Não se importavam com o depois, queriam viver o agora. Queriam que aquele momento não acabasse nunca e que pudessem ficar para sempre juntos.
Dormiram, embalados por uma bela melodia, que os fascinavam desde a primeira vez que a ouviram juntos. Tornou-se esta música então, a do romance dos dois. Agora, era a última música que ouviam juntos, e é verdade que a última melodia em que ouvem, é demasiadamente a mais bonita.

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