Passos inseguros (fugindo da solidão).

Ela caminhava durante a madrugada fria, estava sem rumo em mais um dia de inverno. As folhas estão secas e em seus lábios os sorrisos não nascem mais. Cenas de um filme em preto e branco, assim é sua vida, incolor. Seus passos são lentos e calculados. Tudo está frio, escuro e vazio. As lágrimas se misturam com a dor, solidão e exaustão da caminhada a lugar algum.

Não sabe aonde vai, nem aonde pretende chegar. Não tem preferência por lugar algum, não tem mais gosto de viver, porém tem pena de acabar com a vida. Admite que não aguenta mais, precisa de ajuda, mas não tem ninguém para lhe ajudar.

Ninguém se importa com seu bem estar, pois ela abandonou a todos, impulsionada por seu orgulho idiota. Tudo o que um dia teve, agora sente falta. Abraços, beijos, amores e até alguém para pegar no seu pé. Quanta falta isso lhe faz. Sentiu na pele o ditado que diz que passamos a dar valor quando perdemos algo. Ela perdeu tudo. Quem sabe até perdeu-se de si própria.

Ela caminha, sem saber que vai ao encontro de sua própria alma. Ela precisa redescobrir-se, reinventar, reaprender a amar. São tantas as coisas que precisa reaprender. Precisa novamente, aprender a viver. Pois há tempos ela não vive intensamente, parece que sua vida é coberta por uma enorme nuvem cinza, que às vezes causa o maior temporal repentino e esquece-se de trazer o arco-íris.

É uma caminhada longa e vazia, há corujas nas árvores que avista, há desespero em seu olhar sem vida, há sede de reencontrar sua vida. Tantas vezes ensaiou para que seus passos finalmente pudessem se tornar reais. Sente que à noite é o melhor momento para caminhar sem alguma companhia. Não precisa ver sorrisos, não vê amores, alegria e nem muito pessoas efusivas. Somente encontra a calmaria, a brisa fria que faz as folhas das árvores caírem ao chão.

Pretende encontrar motivos para viver em paz e poder novamente dizer que tem razões para ser feliz. Procura a felicidade, até nas coisas mais banais que possam existir. Tem companhia agora, de um gato, um felino muito atencioso que copia seus passos pela estrada vazia.

Mas para falar a verdade, ela caminha, sem precisar se levantar. É um grande sonho que a faz caminhar, sem saber se isso tudo pode de alguma maneira ser real. Sente-se como se estivesse andado realmente, sente que está perto da chegada, do momento em que ela encontra motivos para viver feliz.

Ao acordar, dúvidas se instalam novamente em sua cabeça. Um sonho que a assombra por vários dias, o medo a corrói. Mal sabe que é um alerta, porque já está em tempo de ela tornar-se uma pessoa melhor.

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