Sobre máquinas de escrever e um bocado de solidão.

A pequena Lucy havia ganhado a sua máquina de escrever. Beirando seus oito anos, achava aquilo magnífico, pois poderia colocar um toque de vida ao que produzia com lápis e papel. Seus pais não sabiam, mas ela se aventurava em escrever pequenas coisas enquanto ficava sozinha em casa. Quando se sentia sozinha, a menina arriscava pegar os papéis em branco que encontra na estante mais alta do quarto e o lápis que usa na escola. Só que agora, com o presente que havia ganhado de Natal, ela poderia dar um ar mais real para aquilo que sentia. Ah, como aquela máquina a fascinava… O modo como as teclas eram batidas, cada letra que aparecia.

Ela estava em seu quarto, utilizando a máquina de escrever, quando seu pai apareceu. Não conseguiu ser rápida o bastante para que seu pai não conseguisse ler o manuscrito do que escreveu. Seu pai afagou seus cabelos loiros cacheados e olhou para a filha, usando aquele vestido que ele havia comprado um ano antes e que na época tinha ficado grande, mas agora lhe servia. Observou sua menina que mais parecia uma princesa e admirou-se com a simplicidade, mas a habilidade que tinha com aquela máquina e as palavras. Não a repreendeu. Muito pelo o contrário, deu-lhe um beijo na testa e a encorajou a continuar a escrever enquanto ele a olhava. Lucy corou. Não conseguia. Seu pai compreendeu e a deixou sozinha. Ela só conseguia escrever quando estava só.

Depois de certo tempo, Lucy já tinha produzido vários pequenos versos e teve coragem de mostrar para sua mãe algum texto mais simples e que não mostrasse a fundo o que sentia. Sua mãe ficou encantada com aquilo, mas ao mesmo tempo não entendia como o texto havia tocado-lhe tanto. Afagou os cabelos da pequena menina e a levou para o quarto onde a colocaria para dormir. Como seu quarto ficava no cômodo mais escuro da casa e ela não gostava muito de claridade ao ponto de dormir com a luz acesa, sua mãe acendeu uma vela, como fazia em todas as noites.

Dormia tranqüila, em um sonho que, pelo o sorriso que possuía em seus lábios, parecia calmo e feliz. Ela sonhava com um lugar que não conseguia identificar. Mas as cores do local eram cores alegres e vivas, que ao mesmo tempo traziam uma paz imensa. Andava como se não tivesse rumo e enxergava ao seu redor, a cada passo que dava várias letrinhas formavam algumas palavras. Ela reconhecia aquelas palavras. Mas é claro! Eram as palavras que escrevia em seus pequenos textos. Sonhava com seus próprios textos. Mas como era possível? Algumas borboletas voavam ao redor das palavras que iam se formando e sentia-se tão feliz… Mas algo mudou. Seu sonho começou a ficar sombrio e as cores vivas que traziam-lhe calma, agora traziam agonia. Sentiu como se estivesse caminhando para algo horrível e não conseguia acordar. Em seu sonho, Lucy sonhava que as suas palavras ficavam perdidas em algo que parecia fogo. Cada palavra parecia correr para aquele lugar e ela não conseguia salvá-las.

Despertou de seu sonho e sentiu-se aliviada por alguns segundos, quando sua mãe apareceu desesperada em seu quarto, tirando-a as pressas dali. A vela que sempre acendia para que ela dormisse, havia causa um incêndio ao que se encostou à cortina da janela que o vento forte empurrou para dentro do quarto. A pequena garota precisava segurar na mão de sua mãe e sair imediatamente dali, se ainda quisesse viver. Estava quase fazendo isso quando se lembrou dos seus textos e da sua preciosa máquina de escrever. Como os esqueceria ali em um cômodo que logo seria totalmente coberto pelo fogo? Mas se os pegasse, não teria como sair a tempo do quarto e da casa. Foi uma decisão difícil, mas agarrou a mão da mãe e do pai e saiu com lágrimas nos olhos dali.

Apesar de toda a inocência de criança, ela não tinha esperança que seus textos se salvassem. E realmente foi isso o que aconteceu. Seus textos se perderam em direção ao fogo, queimando-se um a um. Como acontecia em seu sonho. Tantas vezes quis que o que sonhava se tornasse realidade, mas agora desejava que tudo isso não fosse um grande pesadelo e que quando acordasse tudo estaria bem novamente. Todavia, não foi isso o que aconteceu. Viu-se diante de pedaços do que um dia tinha sido sua máquina de escrever e seus textos não eram mais nada. Sentia dor. Sua mãe por grande tempo se culpou por ter esquecido a janela aberta justamente naquela noite que ocorreu a ventania. Sentia que havia acabado com um possível sonho de sua filha. De fato, Lucy apegou-se ainda mais com o pai depois daquele acontecimento.

Sua família mudou-se para uma casa em um bairro tranqüilo e ela ganhou uma nova máquina de escrever. Mas, por dentro, ainda sentia um vazio. Os textos que havia perdido deixavam um vazio dentro de si até hoje. Mas a pequena menina tomou esse grande vazio e transformou-o ao longo dos anos em inspiração. Amou ainda mais intensamente a escrita e desejou muito que sua mãe ainda estivesse ao seu lado para que ela agora fosse capaz de se desculpar. Mesmo assim, o fez, através da escrita desse texto, que longos vinte anos depois, teve a coragem de trazer as lembranças detalhadamente à tona e libertar-se daquele sentimento ruim.

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