A dança.

A sala da minha casa era um cômodo onde eu sempre conseguia me libertar dos meus maiores problemas. Por dançar nela, quando finalmente eu tinha a casa só para mim por algumas horas. Aliás, a dança sempre foi a minha paixão. Nela eu me sentia totalmente livre e sem obrigação alguma. Fazia aquilo por prazer, por ser a minha maior paixão.

Certa noite eu acabara de ficar em casa sozinha, pois todos tinham ido ao cinema e depois dormiriam na casa de alguém da nossa família. Mas, como o filme não era do meu agrado e estava precisando ficar sozinha, resolvi por ficar no meu canto. E além do mais, poderia realizar a minha terapia secreta: a dança. E então, quando todos saíram e a porta se fechou eu dancei. Coloquei uma música que ultimamente tinha embalado as minhas melhores danças e dançava ao ritmo da mesma. Rodopiava em mais alguns passos dessa solitária dança. Acabei por apagar as luzes da casa, pois assim sentia-me melhor. Sentia-me não sendo observada. Continuava com meus movimentos delicados ao passar por cada parte da sala.

Ao apagar as luzes fechei algumas janelas, mas acabei por esquecendo a porta da casa destrancada. Não liguei, pois logo terminaria a minha terapia e poderia ir trancá-la. Eis que algum tempo depois, já embalada pela segunda música, ouço os primeiros pingos de chuva a cair lá fora. Por um segundo após ver a chuva cair com precisão pela noite afora, eu sentia um pequeno arrepio percorrer todo o meu corpo, sem entender coisa alguma. Meus pés não seguiram mais aos meus comandos e quando olhei para o lado, senti uma presença estranha e acendi a luz. Vi um rapaz estranho parado à minha frente e tive vontade de gritar e sair correndo, com medo do que poderia me acontecer.

Ficava com medo ao ver o brilho que continha em seu olhar. Era um olhar que me hipnotizava, tirava-me fora dos eixos. Olhamos-nos por alguns instantes e sem trocar palavra alguma, quando eu tinha tomado coragem para gritar, ele delicadamente levou seu dedo indicador até os meus lábios, como se quisesse dizer que eu não precisava ter medo. Seus movimentos eram rápidos e eu mal pude perceber quando ele pegou em minhas mãos e começou a me embalar novamente com uma delicada e calma dança, muito melhor de que qualquer uma que eu já tenha feito.

Era estranho explicar, porque eu mal o conhecia e era mais estranho ainda estar nos braços de um desconhecido quando a minha família poderia chegar a qualquer momento, mas eu sentia-me protegida e segura em seus braços. A cada passo que completamos essa certeza de proteção só aumentava ainda mais. Ele me envolvia em um abraço acolhedor, um abraço acolhedor e tão bom. Eu não via o tempo passar e quando dei por mim, não precisávamos mais das luzes acesas, pois o dia tinha amanhecido.

Porém, conforme a noite chegou ao fim, meu coração sentiu uma dor muito forte. Eu não conseguia entender porque senti-la, se eu o tinha ao meu lado e continuava envolvida por seu abraço. E então, tudo ficou escuro novamente e tonturas me atormentaram. Nada consigo lembrar depois disso. As únicas lembranças que tenho é que era a primeira vez que me sentia verdadeiramente protegida e adorada por alguém.

Lembro que depois disso, de não lembrar absolutamente de nada que me aconteceu após sentir aquela dor tão forte, eu me encontrava deitada ao sofá, com a luz do sol entrando pela janela e a minha família já em casa. Sentia um sentimento de incapacidade e raiva de mim mesma por nunca saber se aquilo foi um sonho, uma ilusão da minha mente ou uma estranha, mas doce realidade.

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