A jogada final.

Aquele era um jogo complicado de
jogar. Você tinha que geralmente arriscar todas as fichas que tinha em uma só
jogada, são poucas as pessoas que se arriscam dessa maneira. Todas suas
apostas, suas certezas seriam colocadas na mesa junto com as cartas. Falando
nelas, as cartas estavam todas colocadas na mesa, com seus números e naipes. Os
dois jogadores e os vários observadores esperavam ansiosos pela jogada final. Essa
jogada estava demorando uma eternidade para ser realizada, mas não é para
menos, é preciso muita concentração, se algo dá errado, um dos dois perde muita
coisa.
Ao fundo tocavam músicas
quaisquer, a música não fazia muito sentido para a situação. Na verdade, nada
fazia muito sentido ali. Era um lugar qualquer, com pessoas normais, sem importância.
Que consideravam o jogo fútil, mas não queriam parar de jogar ou observar. Eram
somente duas pessoas jogando. Duas pessoas a cada rodada. Os outros, que se
contentem observando, oras. Se bem que a maioria gosta mesmo só de observar,
mas há loucos, como os jogadores dessa rodada, que querem muito vencer. Mas o
que estava em questão naquela rodada? 
Era um sentimento forte, apesar de não fazer muito sentido para a
jogadora. O problema era que ela não admitia perder, nunca era de seu feitio
ser derrotada. Não engolia derrotas, não suportava admitir que fosse fraca.
Apesar da constante solidão, jurava estar tudo em grande perfeição. Uma
mentira. Uma mentira para si mesma que costuma ser sempre a pior das mentiras.
Fingia ser o que não era só para não agüentar o olhar de pena das pessoas.
A moça que estava jogando adorava
sair vitoriosa das coisas, bem por isso aceitou aquele jogo. Agora, da jogada
final decidiria sua vida. Descobriria se finalmente teria a chance de ter a
sorte nesse jogo babaca do amor. Nunca foi privilegiada de conseguir essa coisa
em comum. Sempre
teve sorte apenas no jogo. Viveu até agora de jogos, casos falsos de final de
semana, daqueles que não te ligam na segunda-feira, nem na terça e nem nenhum
outro dia do mês. Até agora, viveu de músicas e dos seus amigos. Apenas disto.
Já era uma mulher formada e não
havia conhecido o gosto do amor, a sensação que se tinha ao amar. Nunca se
permitiu amar alguém, mesmo que na adolescência tivessem enchido de garotos que
morriam por ela. Detestava. E agora aguentava o olhar impaciente de pessoas que
eram suas inimigas e a única semelhança que tinham com ela era o jogo pelo
amor. Que ideia mais ridícula essa, não acham? Jogo e amor não costumam
combinar, por que nesse lugar ela foi parar? Sua cabeça estava girando e
desejava inutilmente fugir dali. Mas estava cercada por todos os lados e fugir
seria desistir, seria se humilhar sozinha, um prato cheio para seus inimigos.
Seria manchete de jornal ao dia seguinte. Ou não fosse tão importante para ter
tal mérito de sair em um jornal, talvez fosse o assunto de uma rua qualquer.
Estaria na boca de pessoas detestáveis.
Ela teria que insistir e
arriscar. O que tinha a perder mesmo? Ah, o amor. Era sua cartada final, o jogo
estava praticamente ao seu lado. Só mais uma jogada e poderia enfim começar a
sentir como seria amar. Mas ao invés disso, sentia ansiedade, medo, angústia e
raiva. A jogada final fora feita, as cartas na mesa e a expectativa. Logo os
observadores poderiam descobrir quem saiu vitorioso. Se fora a moça, ou se fora o moço.
Não esquecendo que há também a possibilidade dos dois jogadores perderem. Esse
jogo é muito diferente dos demais.
Após tanta aflição em espera, logo
chegou a decepção, mais uma vez. Algo havia saído errado e agora não dava mais
para voltar atrás. Já foi, passou. Já perdeu e já se humilhou. A dor da
derrota, a dor de perder o seu amor. E não entende a derrota, pois todos dizem
que o amor era um jogo fácil de ganhar. Depois ainda não sabem por que se
tornou tão fria. Não acredita mais em amor, nem em jogos, nem em nada. Perdeu a
vontade. Caminha na escuridão da noite, sente o vento entrar em seu corpo e
jura não derramar uma lágrima sequer. Os finais felizes das histórias que lia
na infância, agora eram estúpidos e banais. Idiota era a única palavra que
conseguia pronunciar, e assim foi até a sua casa chegar. Ao chegar a sua casa,
caminhou lentamente até o quarto enquanto pensava no que tinha acontecido
durante aquelas horas, podendo encontrar abrigo na própria solidão, apagando a
luz e devaneando de forma falsa sobre a felicidade que estava perto e que se perdeu.

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