O quão ruim é olhar para uma folha de papel e nada conseguir escrever? Não conseguir registrar toda emoção que está sentindo naquele momento? Mariana se sentia assim nos últimos dias. Ela tinha tanta coisa dentro de si, só que não conseguia desabafar com as palavras. O mundo ao seu redor continuava igual, mas sabia que algo dentro dela estava mudando ou já tinha mudado. Ela não conseguia registrar isso com o que era sua melhor amiga, a escrita.
Sempre que algo acontecia ou ela se sentia diferente, registrava no papel o que havia mudado, ou o que queria que tivesse mudado. A escrita era a forma como ela tinha escolhido para expressar o que sentia, pensava ou imaginava. Aliás, sua imaginação era o que mais gostava em si. Sempre que se encontrava sozinha seus pensamentos iam longe imaginando o que queria que acontecesse. Imaginava tantas coisas e essas coisas lhe davam inspiração para utilizar-se das palavras.
Escrever para Mariana significava muito mais do que rabiscar algumas coisas em uma folha de papel ou escrever algumas linhas num editor de texto. Escrever ia muito além, pois era uma coisa que fazia e se sentia bem. Algo que ela conseguia fazer naturalmente, apesar de estar passando por hiatos literários. E não há como negar que tudo que escreve tem um pouco de si. Um pouco não, muito do íntimo, da alma, de tudo que a compõe. Tudo que um escritor, famoso ou amador escreve tem muito de si. Muitas vezes camuflado.
Mariana olhava para aquela folha de papel e pensava em como se sentia bem sabendo que tem as palavras como sua aliada nas horas tristes e alegres. Alegres sim, pois para ela era igualmente bom escrever sobre a alegria. Há boatos em que os textos escritos com a tristeza saem mais bonitos. Pode até ser, mas para aquela moça todos os estados emocionais serviam de inspiração se a pessoa gostasse de escrever.
Todas as pessoas ou ao menos a maioria delas utiliza alguma forma de expressão artística para conseguir colocar para fora tudo o que sentem. Algumas desenham, outras pintam, outras cantam e até praticam esportes. Mariana não fazia nada disso, mas escrevia. Escrevia não para os outros, mas para si mesma. Não pensava que era a melhor escritora amadora do mundo, pois estava longe disso, tinha muito que aprender. Mas escrevia porque isso a fazia sentir melhor. Mais viva. Conseguia jogar fora toda a angústia e transformá-la em uma história bonita.
Escrevendo aquela menina conseguia eternizar momentos e sentimentos. Gostava de reler textos antigos e lembrar-se de como pensava no passado. E gostava da ideia de que iria fazer isso daqui alguns anos e relembrar e acompanhar todo o seu amadurecimento. Olhando para aquela folha em branco, ela entendeu que escrever era a forma com que ela se conecta com o mundo e mostrava seus pensamentos, que muitas vezes pela fala verbal não saíam. Mariana agora conseguia entender que sua tristeza por não conseguir escrever deveria acabar, pois em seu desabafo conseguiu juntar enfim as palavras que lhe faltavam. De tanto querer escrever, conseguiu. Conseguiu e percebeu que a escrita faz parte de sua vida, mas não porque ela quem a escolheu, mas sim, pois foi escolhida pela escrita.
E eu percebi que gosto de me camuflar em personagens, assim como acabei de fazer com a Mariana.

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